Furto de cabo em eletroposto: o novo alvo do crime no Brasil
Cabos de cobre furtados em eletropostos já causaram mais de R$ 50 mil em prejuízo no DF. Engenheiro explica o motivo e o que fazer na prática.
Terça-feira, 14 de julho, plena luz do dia, em Águas Claras (DF). A câmera de segurança de um eletroposto registrou um homem se aproximando com um alicate grande, cortando o cabo de carregamento em segundos e saindo andando com o material escondido dentro de um carrinho de supermercado. Ninguém no estacionamento interveio. Dois dias depois, de madrugada, outro cabo sumiu no Riacho Fundo. O prejuízo só nessas empresas parceiras do Distrito Federal já passa de R$ 50 mil, segundo o empresário do setor Wilson Salgado — cada cabo custa cerca de R$ 5 mil pra repor.
O que está acontecendo
Não é um caso isolado do DF. Em Curitiba (PR), um homem levou menos de 30 segundos pra cortar o cabo de um eletroposto com uma serra e fugir — tudo filmado pelo circuito interno. Casos parecidos apareceram em Coqueiros (SC) e em outras regiões do Distrito Federal, com conectores cortados e inutilizados encontrados por usuários que só descobriram o problema na hora de plugar o carro.
O alvo é sempre o mesmo motivo: os cabos de recarga usam fiação de cobre espessa — o metal mais cobiçado no mercado clandestino de sucata. Um cabo de recarga rápida DC carrega até 350 kW e por isso precisa de seção de cobre grossa o bastante pra não esquentar sob essa corrente. É justamente essa robustez que vira alvo.
Segundo o empresário Wilson Salgado, mais de dez empresas parceiras já registraram furtos no DF, com as estações de Águas Claras e Taguatinga concentrando a maior parte dos casos. A onda começou há cerca de oito meses e, segundo ele, vem se intensificando por falta de resposta — “ninguém faz nada, ninguém é preso, e estão se sentindo à vontade pra roubar”, relatou ao Metrópoles. A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) já entrou no assunto: o vice-presidente da entidade, Davi Bertoncello, defende que a solução de fundo não é só dificultar o furto no local, e sim mirar quem compra o cobre roubado — os receptadores de sucata que sustentam a demanda.
O setor está reagindo de duas formas. A mais barata e mais usada aqui: trocar fiação de cobre por cabos de alumínio, que valem muito menos no mercado ilegal. A mais sofisticada, ainda restrita ao exterior: a finlandesa Kempower desenvolveu, com a consultoria britânica Formula Space, uma capa de cabo resistente a corte que libera um fluido forense sob pressão quando violada — invisível a olho nu, mas rastreável sob luz ultravioleta, e que marca a pele do ladrão.
Por que isso importa pra você
Aqui entra a parte que a notícia não conta: a troca de cobre por alumínio não é de graça tecnicamente. Cobre tem resistividade elétrica de cerca de 1,68 × 10⁻⁸ Ω·m; o alumínio, cerca de 2,82 × 10⁻⁸ Ω·m — quase 70% maior. Pra um cabo de alumínio entregar a mesma corrente com a mesma perda por aquecimento que um de cobre, ele precisa de seção transversal bem maior, o que o deixa mais grosso e mais rígido. Na prática: o cabo que vai substituir o furtado tende a ser mais pesado e menos maleável no dia a dia — um efeito colateral que ninguém anuncia no comunicado de imprensa.
Isso pesa diferente dependendo de onde você carrega. Na rede pública — a mesma que já falha por instabilidade de conexão quando a sessão de recarga trava no meio do caminho — o furto de cabo é mais um motivo pra nunca contar com um único eletroposto na rota. Pra quem carrega em casa ou no condomínio, o risco muda de perfil: instalei cerca de 40 wallbox residenciais nos últimos anos e nunca vi furto de cabo dentro de vaga privativa fechada. O problema em garagem coletiva é outro — iluminação ruim e vaga sem controle de acesso, o que já discuti em detalhe no guia de instalar wallbox em condomínio.
Tem ainda a pergunta que ninguém faz até acontecer: sua seguradora cobre isso? Equipamento de recarga instalado — wallbox, cabo, base — normalmente entra como bem acessório na apólice residencial ou como item à parte na do carro, não automaticamente no casco do veículo. Vale conferir exatamente o que a apólice de seguro do elétrico cobre antes de assumir que está protegido.
O que fazer com isso agora
- Antes de uma viagem longa, confira o status do eletroposto em tempo real pelo app da rede — não confie que vai estar funcionando só porque apareceu no mapa.
- Mapeie sempre 2 pontos alternativos no trajeto, principalmente em rodovias com pouco eletroposto por km, como discuti ao comparar as redes de recarga rápida DC do Brasil.
- Em casa ou no condomínio, prefira vaga com iluminação e, se possível, dentro do campo de uma câmera — ou considere trava de cabo, item comum em wallbox de gama média.
- Ligue pra sua seguradora e pergunte, por escrito, se equipamento de recarga instalado tem cobertura contra furto — a maioria dos donos nunca perguntou.
- Se encontrar um cabo cortado, registre boletim de ocorrência e avise a rede pelo app — cada registro formal ajuda a Polícia Civil a mapear o padrão e pressionar quem compra o material roubado.
Fontes
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


