Sessão de recarga falhou no eletroposto: o que fazer (e como pedir reembolso)
Pagou, conectou, não carregou. O que fazer quando a sessão DC falha no eletroposto brasileiro, os 5 erros mais comuns por rede e como recuperar o dinheiro cobrado.
Março deste ano. Um casal rodando de BYD Dolphin Mini na Régis Bittencourt, parada programada no eletroposto de Miracatu (SP). O app autorizou, o conector clicou, o painel do carro mostrou “conectado”. Trinta segundos depois, a sessão caiu. Tentaram três vezes. Cobraram duas. O suporte da rede atendeu só no dia seguinte. Ficaram noventa minutos parados esperando a bateria estar em 18% antes de arriscar seguir até o próximo ponto.
Eu ouço essa história — com variações — toda semana. E a minha tese é direta.
A tese
A infraestrutura de recarga DC no Brasil não é ruim porque as empresas são incompetentes. É ruim porque o sistema inteiro foi desenhado pressupondo conectividade de dados estável e o usuário saber o que está fazendo — duas premissas que falham ao mesmo tempo, com frequência, no miolo de rodovia brasileira. O dono de EV que aprender a diagnosticar a falha em dois minutos vai sofrer muito menos do que quem fica apertando o botão esperando uma mágica que não vem.
As 3 evidências de campo
1. A maioria das falhas tem causa identificável — e previsível
Em sete anos instalando e diagnosticando infra de recarga, vi que 80% das sessões que falham caem num de cinco padrões. Listei em ordem de frequência:
Comunicação OCPP instável. O protocolo que o eletroposto usa pra falar com o servidor da rede (OCPP 1.6 ou 2.0.1) depende de dados móveis — geralmente 4G com chip de IoT. Em áreas de sombra de cobertura, o eletroposto perde o backend. Sem autorização do servidor, a sessão não inicia ou cai no meio. O display pode mostrar “Preparando” indefinidamente. O app fica em “Aguardando” sem resposta.
PLC ruidoso na fiação do local. O cabo do conector CCS2 usa o padrão HomePlug GreenPHY pra comunicar com o carro (ISO 15118 / DIN 70121). Quando a fiação do estacionamento tem interferência ou aterramento ruim, esse canal de comunicação falha. O carro e o eletroposto ficam tentando handshake e nunca chegam em “Charging”. Aparência: conectou, display “preparando”, desconectou sozinho em 20–40 segundos.
Fusível do conector queimado. Contato ruim no pino do conector, calor extremo ou corrente acima do projetado queimam o fusível interno do cabo. A estação detecta, aborta a sessão. Normalmente o display mostra código de erro — mas nem sempre o app traduz esse código em português.
Bloqueio por temperatura de bateria. Não é falha do eletroposto — é o BMS do carro recusando a sessão. Se a bateria está acima de ~40–42°C (comum em estacionamento de asfalto em Nordeste no verão), o BMS limita ou recusa DC. O eletroposto tenta iniciar, o carro responde com limite zero, a sessão aborta. O app da rede mostra falha, mas o problema é o carro precisar resfriar.
Versão de firmware desatualizada no eletroposto. Redes que crescem rápido (como fizeram algumas em 2024–2025) às vezes têm postes com firmware desatualizado que não é compatível com novos modelos. Exemplo documentado: Dolphin Mini com firmware de lançamento não fechava sessão OCPP 2.0.1 em postes específicos da rede EZVolt até a BYD liberar atualização OTA em novembro de 2024. O comparativo das redes DC no Brasil detalha quais redes têm histórico de atualização mais consistente.
2. O protocolo de reembolso é confuso de propósito — mas tem caminho
Quando a sessão é cobrada e não carregou, o reembolso existe — mas a maioria das redes não o divulga de forma clara.
A regra geral nas principais redes BR (EZVolt, Tupinambá/Eletric e Zletric) é: sessão com menos de 1 kWh entregue tem reembolso automático em até 5 dias úteis, desde que a cobrança conste como “concluída” no app. O problema é que muitas sessões que falham ficam como “em andamento” no sistema por até 24h — e o usuário não consegue abrir chamado até o status fechar.
O caminho que funciona:
- Tire print da tela do app antes de sair do local com o status da sessão e o valor cobrado.
- Fotografe o display do eletroposto mostrando o erro (ou “disponível” depois da falha).
- Anote hora exata, número serial do poste (geralmente na lateral da coluna) e modelo do carro.
- Abra o chamado dentro de 48 horas — depois disso algumas redes não aceitam a contestação.
- No chamado, mencione “cobrança indevida por sessão não iniciada” (não “o app travou”). Essa frase ativa o fluxo de billing, não o de suporte técnico geral — que é mais lento.
Na minha experiência, 90% dos reembolsos de sessão com menos de 0.5 kWh saem sem briga. O problema são as sessões que entregaram 5–8 kWh e depois caíram — aí o usuário pagou e carregou parcialmente, e a rede considera a sessão “executada”. Nesse caso o chamado vai pra análise manual.
Para mapear a disponibilidade de postes em tempo real antes de chegar ao local, o comparativo dos aplicativos de recarga no Brasil mostra qual app tem atualização de status mais confiável por rede.
3. O custo escondido da sessão falha não é o reembolso — é o tempo
Um reembolso de R$ 35 demora 5 dias úteis. Mas 90 minutos parado esperando numa rodovia — bateria baixa, criança no banco traseiro, prazo pra chegar — não tem reembolso.
O custo real da falha é desvio de rota para backup. Se a bateria estava em 25% ao chegar no eletroposto que falhou, e o próximo ponto fica a 80 km, você pode não ter margem pra chegar confortável sem reduzir velocidade e desligar auxiliares. Isso muda o cálculo de qualquer viagem.
A única mitigação real é planejamento com redundância: nunca depender de um único ponto de recarga em trecho longo. O custo real da recarga rápida DC em viagem tem a conta de quantas paradas DC por trecho fazem sentido financeiro em relação a carregar em casa — e ajuda a calibrar a margem que vale deixar de buffer.
O contra-argumento honesto
A taxa de falha real das redes brasileiras melhora ano a ano. EZVolt e Tupinambá publicam uptime de 90–94% nos últimos trimestres, e as redes com maior histórico de reclamação (especialmente postes em postos de combustível de terceiros, sem monitoramento próprio) estão sendo gradualmente substituídos por infraestrutura gerenciada. Quem rodava EV no Brasil em 2022 e roda hoje diz que a confiabilidade melhorou bastante. O problema é que o usuário novo não tem esse histórico — e a primeira sessão que falha assusta mais do que deveria.
Além disso, parte das “falhas” que chego a diagnosticar é operação incorreta — cabo desencaixado na pressa, tentativa de usar CCS2 num ponto que tem só CHAdeMO, ou ignorar a instrução do app de “manter motor desligado” com o carro em Ready. Erros evitáveis com dois minutos de leitura.
Onde isso te leva
Guardar esse fluxo de diagnóstico no celular vale mais do que qualquer app de rotas:
- Falhou em menos de 60s? Suspeite de OCPP (sinal de dados fraco) ou PLC (tente em outro conector da mesma estação, se houver).
- Conectou, ficou em “preparando” por mais de 90s? Suspeite de BMS negando — espere 10 min com ventilação ligada e tente de novo.
- Display mostra código de erro? Fotografe e busque o código + modelo do eletroposto online antes de ligar pro suporte.
- Cobrou e não carregou? Print + foto + número serial + chamado em 48h com a frase “cobrança indevida por sessão não iniciada”.
- Bateria em risco de ficar presa? Não espere mais de 20 min tentando o mesmo poste — acione o backup.
A rede de recarga DC no Brasil ainda vai melhorar muito. O custo do DC fast charging no TCO anual de um elétrico mostra por que recarga pública ainda é um item marginal no custo de quem carrega em casa — o que reduz a pressão em caso de falha pontual. Mas saber lidar com a falha, quando ela vem, é parte do kit de quem roda EV no Brasil hoje.
Fontes
- ABNT NBR 17019:2022 — Requisitos de segurança para sistemas de recarga de veículos elétricos. Disponível em: https://www.abntcatalogo.com.br
- Open Charge Alliance, OCPP 1.6 / 2.0.1 specification. Disponível em: https://www.openchargealliance.org/protocols/ocpp-16/
- CharIN e.V., Combined Charging System (CCS) — ISO 15118 overview. Disponível em: https://www.charinev.org/ccs-at-a-glance/ccs-standard/
- ANEEL, Resolução Normativa nº 1.000/2021 — Regras de atendimento ao consumidor. Disponível em: https://www.aneel.gov.br/resolucoes-normativas
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


