Eletroposto no comércio vale a pena? O payback que o vendedor não mostra
Fornecedor promete payback de 24 a 36 meses pra instalar carregador rápido. Refiz a conta com a taxa de uso real do Brasil — o resultado depende de um número só.
Recebi a mesma ligação três vezes esse mês. Dono de posto, síndico de shopping pequeno e gerente de um restaurante de estrada — todos com a mesma pergunta depois de ouvir um vendedor de carregador: “o payback é de dois, três anos, é isso mesmo?” A resposta curta é: só se o carregador ficar ocupado quase toda hora útil do dia. E isso, hoje, no Brasil, quase nunca acontece.
Não é má-fé do vendedor. A conta de 24 a 36 meses existe, vem de gente séria do setor, e num eletroposto de rodovia movimentado ela bate. O problema é que ela virou padrão de mercado — repetida pra qualquer estabelecimento, sem perguntar quantos carros elétricos passam por ali de fato.
O que a lei permite (e o que ela não garante)
Antes da conta, a base regulatória. A ANEEL publicou em 2018 a Resolução Normativa nº 819, ainda em vigor no essencial: qualquer pessoa jurídica — posto, condomínio, shopping, restaurante — pode vender energia pra recarga de veículo elétrico a preço livremente negociado, sem pedir concessão, permissão ou autorização especial. A única obrigação é comunicar à distribuidora local antes de instalar ou alterar a carga do ponto.
Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque a barreira de entrada é baixa — não existe burocracia de energia pra travar o projeto. Ruim porque não existe filtro nenhum: qualquer um instala, e a distribuidora só age depois, quando já é tarde pra rever a decisão de compra. A regulação resolveu o “posso vender energia recarregando carro” — não resolveu o “vou ganhar dinheiro com isso”.
Quanto custa entrar nesse negócio
Aqui separo por potência, porque é o fator que mais pesa no orçamento e no tipo de cliente que o ponto atrai:
| Tipo de carregador | Potência | Investimento total* | Perfil de cliente |
|---|---|---|---|
| AC (carga lenta) | 7-22 kW | R$ 12 mil a R$ 40 mil | Carro fica parado 2h+ (shopping, restaurante, hotel) |
| DC rápido | 50-60 kW | R$ 80 mil a R$ 150 mil | Parada curta, 20-40 min (rodovia, posto) |
| DC ultrarrápido | 150 kW+ | R$ 200 mil ou mais | Corredor de viagem, alto giro |
*Inclui equipamento, adequação de rede (quadro, cabeamento) e instalação — não inclui eventual reforço de transformador, que pode dobrar o valor se a subestação já estiver no limite. Faixas de mercado consultadas em ago/2026; a instalação de um carregador rápido de 60 kW já foi orçada publicamente em até R$ 1 milhão quando envolve obra pesada de rede, segundo a gerente de mobilidade elétrica da Raízen em entrevista à Folha de S.Paulo, então trate o piso da tabela como cenário otimista, não garantia.
O recálculo que muda a resposta
O CEO da VoltBras, uma das maiores gestoras de rede de recarga do país, disse em entrevista à Cenário Energia que o payback médio de um ponto de recarga fica entre 24 e 36 meses. Não duvido do número — pra rede dele, com pontos em corredor rodoviário de alto tráfego, provavelmente bate. O erro é aplicar essa conta pro comércio de bairro.
Refiz o cálculo com dois cenários pra um carregador DC de 60 kW custando R$ 120 mil (meio da faixa), tarifa pública de R$ 1,80/kWh (meio da faixa de R$ 1,50-2,80 observada em eletropostos brasileiros) e custo de aquisição de energia pelo estabelecimento em torno de R$ 0,75/kWh — margem bruta de R$ 1,05 por kWh vendido.
Cenário otimista (o que o vendedor mostra): ponto ocupado 2h/dia de fato entregando energia, média de 40 kWh por sessão completa em alta potência. Isso dá 1.200 kWh/mês, R$ 1.260 de margem mensal — payback de aproximadamente 95 meses (quase 8 anos), já bem longe dos 24-36 meses prometidos mesmo nesse cenário “bom”.
Cenário realista pra comércio local (o que eu vejo em campo): 1 sessão completa por dia, 20 kWh de média (a maioria dos carros hoje é BYD Dolphin Mini e similares com bateria pequena, carregando parcial, não de 20 a 80%). São 600 kWh/mês, R$ 630 de margem — payback de 190 meses, mais de 15 anos. Um equipamento que dura entre 8 e 10 anos de vida útil não se paga nesse ritmo.
A diferença entre os dois cenários não é a tecnologia, é uma variável só: quantos carros elétricos passam pela sua porta por dia — hoje. Segundo a ABVE e a Fenabrave, o mercado de eletrificados bateu recorde histórico em abril de 2026, mas a frota nacional ainda é pequena, concentrada nas capitais e em corredores específicos. Fora desses eixos, o “otimista” já é generoso.
Onde o investimento faz sentido de verdade
Três perguntas antes de assinar qualquer proposta, na ordem que eu faço com cliente:
- Seu estabelecimento fica num eixo de fluxo de longa distância (BR-116, BR-040, BR-101) ou perto de um polo de EV já denso (SP capital, litoral, Curitiba)? Se sim, a conta otimista vira plausível.
- Você consegue amarrar o carregador a outra receita — estacionamento pago, consumação mínima no restaurante, taxa de condomínio? Isso reduz a dependência de vender kWh puro pra fechar a conta.
- Dá pra começar pequeno? Um ponto AC de R$ 15 mil quebra o investimento em pedaços menores, testa a demanda real por 6-12 meses antes de comprometer R$ 120 mil num DC que pode ficar parado.
Quem instala AC de baixa potência num shopping ou restaurante — onde o cliente fica parado o tempo do passeio ou da refeição de qualquer jeito — costuma sair no lucro mais rápido que quem aposta alto num DC de rodovia sem tráfego comprovado. O comparativo entre wallbox 7 kW e 22 kW residencial mostra a mesma lógica em escala doméstica: potência alta só compensa quando a rotina de uso justifica o investimento extra, e no comércio isso vale igual.
Vale contrastar também com o outro lado da conta: quem só quer carregar em casa paga uma fração disso — instalar wallbox residencial sai na faixa de alguns milhares de reais, não dezenas de milhares. O investimento comercial só faz sentido quando o carregador vira produto pra terceiros, não conveniência pessoal.
Pra quem decide seguir com DC rápido mesmo assim, olhar o panorama da rede de recarga rápida DC no Brasil ajuda a entender onde já tem concorrente instalado — e onde o ponto realmente é o primeiro da região, o que muda a taxa de ocupação esperada.
Onde essa conta falha
Ela assume tarifa e custo de energia estáveis por todo o período de payback, o que não é realista num país com bandeira tarifária variável mês a mês e reajuste anual de distribuidora. Também não entra em cenário de venda por assinatura (planos mensais fixos pra frota cativa, por exemplo Uber/99), que muda completamente a matemática pra quem atende motorista de aplicativo — modelo que cresce mais rápido que a recarga avulsa em alguns polos urbanos. E não considera incentivo público ou linha de crédito verde, que em alguns estados reduz o investimento inicial em até 30%. Se o seu caso tiver algum desses fatores, vale rodar a conta de novo com números próprios — não com a média nacional.
Fontes
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


