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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Recarga

Eletroposto cobra por kWh ou por minuto? Como ler o preço antes de plugar

O mesmo R$ 0,60 por minuto pode custar R$ 0,36 ou R$ 3,27 por kWh, dependendo do seu carro. Fiz a conta para os três modelos de cobrança e montei um roteiro de leitura do app.

Eng. Rafael Iizuka 6 min de leitura
Carro elétrico conectado a um carregador rápido público, com o visor do equipamento aceso
Carro elétrico conectado a um carregador rápido público, com o visor do equipamento aceso

Dois motoristas plugam na mesma estação, no mesmo horário, e pagam o mesmo preço de tabela: R$ 0,60 por minuto. Um sai da sessão com a conta equivalente a R$ 0,36 por kWh. O outro, a R$ 3,27 por kWh. Ninguém foi enganado. O que mudou foi o carro, e quase nenhum app deixa isso claro antes de você tocar em “iniciar”.

Primeiro: ninguém tabela esse preço

No Brasil, o preço da recarga é livre. Quando a ANEEL aprovou a regra do setor em 2018, a diretoria decidiu não intervir: o Poder360 registrou que os preços são negociados livremente entre usuário e prestador, e que qualquer empresa pode instalar um eletroposto e cobrar como quiser. A relatoria, de Tiago Correia, tratou a recarga como serviço distinto da distribuição de energia. A CERTI descreve a mesma lógica da REN 819/2018: preços livremente negociados.

Na prática, isso significa que cada rede escolhe a unidade de cobrança que quiser. E é aí que o leitor se perde. Na minha leitura, a unidade de cobrança importa mais do que o número que aparece no cartaz.

Os três modelos que você vai encontrar

1. Por kWh. Você paga pela energia que entrou na bateria. É o modelo mais justo para o motorista, porque o carro lento e o carro rápido pagam igual por cada kWh. Se o carregador estiver parado numa curva ruim, você não é punido por isso.

2. Por minuto (ou por hora). Você paga pelo tempo de plugue. Aqui o preço por kWh real depende da potência que o carro aceita naquele momento. É o modelo que mais pega gente desprevenida, e o que mais favorece carro com bateria grande e carregamento forte. Quem entende a curva de recarga DC e por que ela arrasta depois de 80% já percebe o problema: nos últimos minutos, você paga o mesmo preço por pouquíssima energia.

3. Tarifa de sessão mais variável. Uma taxa fixa por iniciar a recarga, somada a kWh ou minuto. Um artigo jurídico sobre tributação da recarga descreve justamente esse arranjo, com tarifa básica por carregamento mais parcela variável por volume ou por tempo. Para uma recarga curta de 10 minutos, a taxa fixa pesa mais do que a energia.

A conta que o app não faz: minuto vira kWh

Esta é a tabela que eu gostaria de ver dentro dos aplicativos. Peguei um preço hipotético de R$ 0,60 por minuto e converti em custo por kWh conforme a potência média que o carro realmente puxa durante a sessão. Conta simples: kW dividido por 60 dá os kWh que entram a cada minuto, e o preço do minuto dividido por esse número dá o custo do kWh.

Potência média na sessãokWh por minutoCusto equivalente a R$ 0,60/min
100 kW (DC forte, bateria vazia)1,67R$ 0,36 por kWh
50 kW (DC mediano)0,83R$ 0,72 por kWh
30 kW (carro pequeno, trecho final)0,50R$ 1,20 por kWh
11 kW (AC trifásico)0,18R$ 3,27 por kWh
7 kW (AC monofásico)0,12R$ 5,14 por kWh

A última linha é a armadilha clássica: carregador AC cobrado por minuto, com carro de aceitação baixa. Você fica plugado a tarde inteira e paga como se estivesse num carregador rápido. Esse é o motivo de eu desconfiar de qualquer AC público tabelado por tempo.

Repare também que a mesma sessão muda de faixa. Um carro que começa a 100 kW e termina a 30 kW tem um custo por kWh que cresce ao longo dos minutos. Por isso, em tarifa por minuto, parar em 70 ou 80% costuma ser racional: o trecho final é o mais caro por kWh.

Como ler o preço em 30 segundos

Antes de plugar, faça esta checagem, nesta ordem:

  1. Qual é a unidade? kWh, minuto ou sessão. Se o app esconde isso, abra os detalhes do ponto.
  2. Existe taxa de início? Some ao total se a sua recarga for curta.
  3. Existe cobrança depois do fim da recarga? Algumas redes cobram por tempo parado ao fim da sessão, para liberar a vaga. Pesquisei e não encontrei regra nacional que defina ou proíba isso, então vale o contrário da suposição: leia o regulamento do operador. Sobre bloquear vaga, o texto sobre multa por ocupar a vaga de recarga mostra o que a lei já alcança.
  4. Qual a potência real do ponto e do seu carro? O menor dos dois manda. Um ponto de 150 kW não faz seu carro de 50 kW carregar mais rápido.
  5. O preço muda por horário ou por pagamento? Alguns operadores têm valores diferentes para usuário do app, convidado e cliente de parceria. Veja o comparativo dos aplicativos de recarga.

Minha regra pessoal

Por kWh, plugo sem pensar muito. Por minuto, só em DC e só se meu carro aceitar potência alta; faço a conta acima antes. Em AC por minuto, eu procuro outra opção, a menos que seja um tempo curto e inevitável. E nunca esqueço o referencial de casa: o custo da recarga pública frente à tomada de casa é o que dá a régua para dizer se um preço por kWh equivalente é aceitável ou abusivo.

O contra-argumento honesto: cobrar por minuto tem uma lógica defensável para o operador, porque o ativo escasso dele é a vaga e o tempo de conector, não a energia. Para estação cheia, o minuto incentiva rotatividade. O problema não é o modelo, é a opacidade. Um app que mostrasse “custo estimado por kWh para o seu carro” resolveria metade das reclamações.

Perguntas que chegam por e-mail

Posso contestar uma cobrança por minuto quando o carregador entregou potência baixa? Se a falha foi do equipamento, sim, e o caminho é o suporte do operador com o comprovante da sessão. O passo a passo está em o que fazer quando a sessão de recarga falha.

Cobrança por kWh é sempre melhor? Para o motorista, quase sempre. A exceção é quando o kWh do operador é bem mais caro do que o preço por minuto equivalente no seu carro rápido, e a conta da tabela acima mostra quando isso acontece.

Fontes

  • Poder360 — Aneel não vai intervir em cobranças para recarregar carros elétricos (jun/2018): poder360.com.br
  • CERTI — Regulação da mobilidade elétrica (REN 819/2018, preços livremente negociados): certi.org.br
  • Machado Meyer — Tributação da recarga de veículos elétricos (estrutura de tarifa básica mais variável): machadomeyer.com.br
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Escrito por

Eng. Rafael Iizuka

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

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