Recarga pública vs em casa: quanto custa de verdade em 2026?
Comparativo real do custo por kWh na tomada de casa versus eletroposto público AC e DC no Brasil. Cálculo com tarifas regionais, bandeiras e cenários de uso.
Um leitor me mandou mensagem na semana passada com uma dúvida que aparece toda semana no meu e-mail: “Rafael, se eu não tenho garagem, compensa ter elétrico só carregando em eletroposto?” Respondi com outra pergunta: você sabe quanto custa o kWh nesse eletroposto?
Ele não sabia. A maioria não sabe — porque os apps mostram “R$ X por sessão” ou “R$ Y por minuto” sem nunca traduzir isso pra uma unidade comparável com a conta de luz em casa.
Esse post é a planilha que ele precisava. Fiz os cálculos por cenário, por região e por tipo de carregador. Não tem resposta universal — mas tem conta honesta.
A versão de 30 segundos
Para quem carrega em casa com wallbox, o custo real fica entre R$ 0,50 e R$ 1,10 por kWh dependendo da região e da bandeira tarifária vigente. No eletroposto público AC (nível 2, 7–22 kW), a faixa típica é de R$ 1,80 a R$ 2,60 por kWh. No fast charging DC (50–150 kW), o custo sobe para R$ 3,00 a R$ 4,50 por kWh nos principais operadores brasileiros.
Traduzindo pra um BYD Dolphin Mini com consumo real de 16 kWh/100 km: cada 100 km custa cerca de R$ 12–18 em casa, R$ 30–42 em AC público e R$ 48–72 em DC fast charging.
O que o kWh residencial custa de verdade?
A conta residencial não é um número só — ela muda por distribuidora, bandeira tarifária, faixa de consumo e horário (se você aderiu à tarifa branca).
Em junho de 2026, com bandeira amarela (adicional de R$ 0,01874/kWh), as tarifas residenciais praticadas nas principais distribuidoras ficam assim:
| Distribuidora | Estado | R$/kWh (com bandeira) |
|---|---|---|
| Enel SP | SP | R$ 0,89 |
| CPFL Paulista | interior SP | R$ 0,82 |
| CEMIG | MG | R$ 0,77 |
| CELPE | PE | R$ 1,03 |
| Energisa MT | MT | R$ 0,98 |
| CELESC | SC | R$ 0,71 |
Fonte: tarifas homologadas ANEEL, junho/2026.
Quem usa tarifa branca e carrega o carro entre 21h e 7h pode reduzir o custo em 20–35%, chegando a R$ 0,51–0,64/kWh fora de ponta em SP. Mas isso só funciona se o hábito de recarga for realmente noturno e consistente — como explico em detalhes no post sobre tarifa branca com wallbox vale a pena.
Na prática: para Dolphin Mini (bateria utilizável de 38 kWh), uma carga completa em casa em SP custa entre R$ 29 (tarifa branca noturna) e R$ 34 (convencional). Isso é o piso de comparação.
Quanto cobra o eletroposto público AC?
Os carregadores AC públicos (Nível 2, geralmente 7 kW ou 22 kW) são o meio-termo: mais barato que o DC rápido, mas mais caro que casa. Os modelos de cobrança variam:
Por tempo (minuto): prática que favorece carros com carregador onboard potente. Quem tem BYD Dolphin Mini (onboard de 6,6 kW) pagará mais por kWh efetivo do que quem tem um carro com onboard de 11 kW no mesmo ponto de 22 kW.
Por kWh consumido: o modelo mais transparente. Permite comparação direta com a tarifa de casa.
Por sessão fixa: virou raridade, mas ainda aparece em estacionamentos que ainda tentam amortizar o hardware com tarifa flat.
Pesquisei os preços cobrados pelos principais operadores de AC no Brasil em maio/2026:
| Operador | Modelo | Preço efetivo estimado/kWh |
|---|---|---|
| Tupinambá | Por kWh | R$ 1,95–2,20 |
| Zletric | Por minuto | R$ 2,00–2,50* |
| Blink (shoppings) | Por kWh | R$ 2,10–2,40 |
| Rede hoteleira (Nível 2 sem app) | Incluso / flat | variável |
*Estimativa baseada em carro com onboard de 7 kW no ponto de 7 kW.
O custo médio em AC público fica em torno de 2,2× o custo residencial. Para o Dolphin Mini: carga completa de 38 kWh em AC público sai em torno de R$ 76–94 — versus R$ 34 em casa.
Isso não significa que AC público é vilão. Para quem mora em apartamento sem wallbox, ele é o carregador de “rotina” — e dois a três cargas semanais de 30–40 minutos resolvem a semana, especialmente com gerenciamento inteligente de carga via apps de recarga.
Quanto cobra o fast charging DC?
Aqui a diferença é expressiva. O fast charging DC (50 kW a 150 kW, usando CCS2 ou CHAdeMO) é o “combustível de viagem” do motorista de EV — caro por kWh, mas indispensável em rodovias longas.
Os preços atuais nos principais operadores nacionais:
| Operador | Potência | R$/kWh ou R$/min |
|---|---|---|
| Tupinambá Fast | 50–100 kW | R$ 3,20/kWh |
| Shell Recharge | 50 kW | R$ 3,60/kWh |
| EletroCarBrasil | 150 kW | R$ 4,00/kWh |
| BYD Fast (concessionárias) | 60–120 kW | R$ 3,00–3,40/kWh |
| Tesla Supercharger* | 150–250 kW | R$ 3,80–4,50/kWh |
*Tesla cobra por kWh só pra não-proprietários em alguns postos; proprietários têm plano mensal.
Para o Dolphin Mini indo de SP a Campinas e voltando (140 km ida e volta) com carga inicial de 80%, uma parada de 20 minutos em fast charging de 60 kW repõe aproximadamente 18 kWh. Custo: R$ 58–72. Para a mesma recarga em casa: R$ 16–18.
O fast charging custa, em média, 3,5 a 5× o custo residencial. Isso não é exploração — é o custo real da infraestrutura: hardware caro, potência de demanda contratada, ICMS sobre energia, manutenção e margem do operador.
A lógica que adoto com clientes: DC fast é pra viagem, não pra rotina. Quem usa fast 3× por semana pra cobrir quilometragem urbana está pagando quase o mesmo que um flex a R$ 6,00 o litro.
A conta por cenário de uso
Vou aplicar os números a três perfis reais de motoristas que atendo ou conheço:
Perfil 1 — Garagem própria + wallbox (melhor caso)
- Carro: BYD Dolphin Mini, consumo real 16 kWh/100 km
- Quilometragem mensal: 1.500 km
- Energia necessária: 240 kWh/mês
- Tarifa residencial SP (convencional): R$ 0,89/kWh
- Custo de recarga mensal: R$ 213
- Comparativo combustão (HB20 1.0, 13 km/l, gasolina R$ 6,10): R$ 705/mês
Perfil 2 — Apartamento sem garagem + AC público
- Mesmos 1.500 km/mês, 240 kWh
- Usa eletroposto AC do condomínio do trabalho + shopping (média R$ 2,20/kWh)
- Custo de recarga mensal: R$ 528
- Ainda 25% abaixo da gasolina, mas a vantagem estreita
Perfil 3 — Apartamento sem garagem + mix AC e DC
- 1.500 km/mês, sendo 200 km em viagem (1 fast charging/mês de 20 kWh a R$ 3,50/kWh)
- Restante em AC público (220 kWh a R$ 2,20/kWh)
- Custo de recarga mensal: R$ 554
- Viável, mas exige planejamento para não deixar o DC virar hábito
Minha leitura: sem garagem, o elétrico ainda compensa economicamente, mas a margem cai de ~70% pra ~20–25% sobre a gasolina. O break-even de TCO (custo total de propriedade em 5 anos) ainda existe, mas fica mais sensível à depreciação e ao custo de seguro — fatores que analiso com mais detalhe no comparativo de custo total carro elétrico vs combustão em 5 anos.
O que o preço do eletroposto deveria ser?
Essa é a pergunta que ninguém faz publicamente. Fiz o cálculo de trás pra frente com dados de instalação que conheço de projetos de clientes.
Um fast charger DC de 60 kW custa entre R$ 180 mil e R$ 320 mil instalado no Brasil (hardware + obra + SPDA + demanda contratada). Com disponibilidade de 85% e 8 sessões/dia de 15 min cada, o ponto processa ~26.000 kWh/mês. Para recuperar o investimento em 5 anos, com OPEX de R$ 4.000/mês (energia, manutenção, suporte), precisa de receita de R$ 2,10–2,60/kWh só para equilibrar — antes da margem.
Isso explica por que o fast charging não vai baratear no curto prazo. O que pode mudar: maior utilização (menos custo fixo por kWh vendido) e hardware mais barato com a escala do mercado.
Para o AC público, o CAPEX é mais modesto (R$ 8–25 mil por ponto), o que permite preços mais razoáveis — desde que a utilização seja alta o suficiente para cobrir a demanda contratada.
Perguntas frequentes
Qual o custo por km de um elétrico carregando em casa em SP?
Com tarifa convencional Enel SP de R$ 0,89/kWh e consumo real de 16 kWh/100 km, o custo fica em torno de R$ 0,14 por km. Com tarifa branca noturna (~R$ 0,57/kWh), cai para R$ 0,09/km.
Compensa usar fast charging DC toda semana para recarga rotineira?
Não. Com custo médio de R$ 3,50/kWh e consumo de 16 kWh/100 km, o custo por km sobe para R$ 0,56 — mais caro do que um flex moderno com gasolina a R$ 6,00/l (R$ 0,46/km). O fast charging é estratégico para viagens, não para uso diário.
O eletroposto pode cobrar mais que a distribuidora local?
Sim, e de forma legítima. O operador compra energia no atacado, investe em hardware, paga demanda contratada e opera a plataforma de pagamento. O sobrepreço existe — a questão é se o valor da conveniência (velocidade, localização) justifica pro seu perfil de uso.
Quanto vale a pena ter wallbox se já tenho tomada 220V na garagem?
A tomada 220V (modo 2, ~3,6 kW) carrega o Dolphin Mini em ~11 horas. O wallbox de 7,4 kW carrega em ~5,5 horas e tem proteção ativa contra falha. Para quem chega tarde e sai cedo, a diferença pode ser bloqueadora. Veja o guia completo sobre dois EVs na mesma residência e dimensionamento de carga para entender quando o upgrade de infraestrutura compensa.
Fontes
- ANEEL — Tarifas residenciais homologadas por distribuidora, junho/2026. aneel.gov.br/tarifas
- ABVE — Relatório de infraestrutura de recarga Brasil março/2026. abve.org.br
- Tupinambá — Tabela de preços por operação, consultada em 05/06/2026. tupinamba.app
- Shell Recharge Brasil — Preços publicados no app, consultados em 05/06/2026. shell.com.br/motoristas/shell-recharge
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


