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segunda-feira, 20 de julho de 2026
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Recarga

AC vs DC na recarga: por que sua wallbox de 22 kW carrega a 7 kW

Comprou wallbox de 22 kW e o carro só puxa 7 kW? O limite não é a parede, é o carregador de bordo. Engenheiro explica AC vs DC sem enrolação, com a tabela de potência por modelo.

Eng. Rafael Iizuka 7 min de leitura
Carro elétrico conectado a uma wallbox residencial com o conector Tipo 2 encaixado na entrada de recarga
Carro elétrico conectado a uma wallbox residencial com o conector Tipo 2 encaixado na entrada de recarga

Recebo essa mensagem quase toda semana, sempre com o mesmo tom de traído: “Rafael, paguei caro numa wallbox de 22 kW e o carro insiste em carregar a 7 kW. A loja me empurrou um equipamento errado?” Aí eu pergunto qual é o carro. Quando a resposta é Dolphin Mini, Ora 03 ou Atto 3, eu já sei o que aconteceu, e não foi a loja que errou.

O culpado mora dentro do carro, não na parede. Tem um nome pouco glamouroso: carregador de bordo. E entender o que ele faz separa quem compra a wallbox certa de quem joga uns R$ 1.500 fora.

A versão de 30 segundos

Bateria de carro só armazena corrente contínua (DC). A tomada da sua casa entrega corrente alternada (AC). Alguém precisa converter uma na outra. Na recarga AC (casa, wallbox), quem converte é um aparelho dentro do carro, o carregador de bordo, e ele tem um teto de potência fixo: 7 kW, 11 kW, raramente mais. Na recarga DC (eletroposto rápido), a conversão acontece fora do carro, na estação, que manda DC direto pra bateria e por isso atinge 50, 150, 350 kW.

Resumo brutal: sua wallbox de 22 kW só serve de algo se o carregador de bordo do seu carro aceitar 22 kW. A maioria dos elétricos populares no Brasil aceita 7 kW. O resto da potência da parede fica parado.

Conceito 1: por que a bateria precisa de DC

A célula de uma bateria de lítio carrega e descarrega em corrente contínua, ponto. Não existe bateria que aceite AC direto. É física da química, não escolha de engenharia. Toda recarga, sem exceção, termina entregando DC pra bateria. A única pergunta é onde a corrente alternada da rede vira contínua.

A rede elétrica brasileira distribui em AC porque AC viaja melhor por longas distâncias e é trivial mudar de tensão com transformador. A tomada de 220 V da sua garagem é AC. O posto da Enel na esquina é AC. Então, em algum ponto entre a parede e a bateria, um conversor entra em ação. Quem é esse conversor define tudo.

Conceito 2: na recarga AC, o conversor é o carregador de bordo

Quando você pluga em casa, a wallbox (ou a tomada no modo 2) só entrega AC pro carro. O trabalho pesado de converter pra DC é do carregador de bordo, o onboard charger, um módulo eletrônico que vem de fábrica dentro do veículo. Ele é o gargalo. Um Dolphin Mini tem carregador de bordo de 6,6 kW. O Atto 3, na maioria das versões vendidas aqui, fica em 7 kW. O GWM Ora 03 também ronda os 6,6 a 11 kW dependendo do lote.

Repare no que isso significa na prática: ligue um Dolphin Mini numa wallbox de 7 kW e numa de 22 kW, e ele carrega no mesmo tempo nas duas. A parede de 22 kW oferece um banquete; o carro pega só o prato que cabe nele. Pagar a mais pela wallbox parruda, nesse caso, é como comprar uma torneira de bombeiro pra encher um copo. Já destrinchei essa decisão de potência em wallbox de 7 kW vs 22 kW: qual instalar em casa, e a confusão entre potência da parede e energia que o carro pega vem da mesma raiz que abordei em kW e kWh na recarga: por que confundir os dois te faz comprar errado.

Tem um detalhe que poucos vendedores explicam: carregador de bordo pode ser monofásico ou trifásico. Um onboard charger trifásico de 11 kW só atinge os 11 kW se a sua instalação for trifásica. Em casa monofásica, ele cai pra ~3,7 kW. Ou seja, a potência depende de três fatores que precisam casar: o carro, a wallbox e o seu padrão de entrada.

Conceito 3: na recarga DC, a estação faz a conversão e pula o gargalo

No eletroposto rápido, a história inverte. A estação DC tem um conversor industrial gigante e manda corrente contínua direto pra bateria, contornando o carregador de bordo. Por isso um eletroposto DC entrega 50, 150, até 350 kW, enquanto o carregador de bordo do mesmo carro mal passa de 11 kW em AC. Não é que o carro “acelera” no DC. É que o conversor saiu de dentro dele.

Segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), o Brasil fechou 2024 com mais de 12 mil pontos de recarga públicos (ABVE, 2025), mas a esmagadora maioria é AC, não DC rápido. O carregamento DC ultrarrápido segue concentrado em corredores rodoviários e capitais. O dado de que a recarga rápida DC saltou 167% em um ano (Tupinambá Energia / dados de mercado, 2025) mostra crescimento real, mas partindo de uma base pequena.

Aqui vale o aviso técnico que eu sempre dou: a velocidade DC não é constante. O carro carrega rápido até uns 80% e arrasta depois, por proteção química da bateria. Expliquei o porquê em a curva de recarga DC: por que carrega rápido até 80% e arrasta depois. E o conector usado muda entre AC e DC, o que cobri em CCS2, CHAdeMO ou Tipo 2: o guia dos conectores no Brasil.

A tabela que resolve a dúvida na hora da compra

Montei abaixo o limite de carregador de bordo (AC) e o pico de recarga DC dos modelos que mais aparecem nas minhas consultorias. Use a coluna AC pra dimensionar a wallbox: não adianta comprar parede acima desse número.

ModeloCarregador de bordo (AC máx.)Pico DC (aprox.)
BYD Dolphin Mini6,6 kW~60 kW
BYD Dolphin7 kW~60 kW
BYD Atto 37 kW~80 kW
GWM Ora 036,6 a 11 kW~80 kW
Volvo EX3011 kW~150 kW
Tesla Model 3/Y11 kW~170-250 kW

Os valores AC são os limites de fábrica do onboard charger; os de DC são picos de catálogo, raramente sustentados durante toda a sessão por causa da curva de recarga. Confirme sempre a ficha da versão exata, porque montadora muda spec de lote pra lote sem alarde.

A leitura prática é direta: se o seu carro tem carregador de bordo de 7 kW, uma wallbox de 7,4 kW monofásica é o teto útil pra casa. Acima disso, você paga por potência que o carro recusa. O custo de instalar essa wallbox dimensionada eu abri item por item em quanto custa instalar wallbox em casa: a conta real.

Onde isso falha

Esse modelo mental tem uma exceção e uma armadilha. A exceção: alguns carros premium trazem carregador de bordo de 22 kW de série, e aí a wallbox parruda realmente entrega. Antes de descartar a parede de 22 kW, cheque a ficha; se o seu carro é um desses, o investimento se justifica.

A armadilha é confiar só na potência da parede. Já vi gente com wallbox de 11 kW trifásica carregando a 3,7 kW porque a casa era monofásica, e o carregador de bordo trifásico só roda completo em três fases. Potência de recarga AC é sempre o menor entre três números: carro, wallbox e instalação. Acertar um e errar outro não adianta. Na dúvida, peça pra um eletricista habilitado medir seu padrão de entrada antes de fechar qualquer compra.

Fontes

  • ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico, dados de infraestrutura de recarga pública no Brasil. Portal ABVE.
  • Tupinambá Energia — dados de crescimento de recarga rápida DC no mercado brasileiro. Tupinambá Energy.
  • Fichas técnicas oficiais das montadoras (BYD, GWM, Volvo, Tesla) e cotações de consultoria de instalação em SP e MG, junho/2026.
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Escrito por

Eng. Rafael Iizuka

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

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