kW e kWh na recarga: por que confundir os dois te faz comprar a wallbox errada
kW é velocidade, kWh é distância. Entender essa diferença muda qual wallbox você compra, quanto paga de conta de luz e quanto tempo o carro fica na tomada. Guia técnico sem enrolação.
Outro dia um cliente me mandou print de um anúncio de wallbox e perguntou: “Rafael, essa de 22 kWh é melhor que a de 7 kWh?” Tive que responder que não existe wallbox de 22 kWh. Existe wallbox de 22 kW. E que a confusão de uma letrinha no fim ia, literalmente, fazer ele gastar dinheiro à toa numa instalação que a casa dele nem aguenta.
Essa troca acontece o tempo todo. Vendedor fala kW, anúncio escreve kWh, manual mistura os dois, e o dono do carro fica achando que está comprando “mais bateria” quando, na verdade, está pagando por velocidade de recarga que o carro dele nem consegue puxar.
Vamos desfazer essa bagunça de vez. É a diferença de conceito mais importante de toda a recarga elétrica — e a que menos gente explica direito.
A versão de 30 segundos
kW (quilowatt) é velocidade. kWh (quilowatt-hora) é quantidade.
- kW = quão rápido a energia entra na bateria. É a “vazão da torneira”.
- kWh = quanto de energia cabe ou já entrou. É o “tamanho do balde” e quanto de água tem dentro.
Wallbox e carregador se medem em kW (velocidade). Bateria e conta de luz se medem em kWh (quantidade). Confundir os dois é como confundir “litros por minuto” com “litros”. São grandezas diferentes — uma é a outra dividida pelo tempo.
Guarde a fórmula que resolve 90% das dúvidas:
Tempo de recarga (h) = energia que falta (kWh) ÷ potência do carregador (kW)
Agora vamos abrir cada conceito.
Conceito 1 — kW é a torneira
Quilowatt mede potência: a quantidade de energia transferida por unidade de tempo. Quando o anúncio diz “wallbox de 7 kW”, está dizendo a vazão máxima que aquele equipamento consegue empurrar pra dentro do carro.
Pense numa torneira. Uma de 7 kW enche o balde mais devagar; uma de 22 kW, mais rápido — se o balde aceitar receber nessa velocidade. E aqui mora o erro mais caro.
O carro tem um limite próprio chamado carregador de bordo (onboard charger), que é o componente dentro do veículo que converte a corrente alternada da tomada pra carregar a bateria. O Dolphin Mini tem carregador de bordo de 6,6 kW. O Atto 3, de 7 kW. Isso significa que mesmo plugado numa wallbox de 22 kW, o Dolphin Mini só vai puxar 6,6 kW. Os outros 15 kW de “torneira” ficam fechados — você pagou por uma instalação trifásica cara que o carro nem usa.
Foi exatamente o que tentei evitar pro meu cliente. Eu já expliquei em detalhe por que a wallbox de 7 kW resolve pra quase todo mundo, e a de 22 kW raramente compensa — a regra é casar a potência da wallbox com o carregador de bordo do carro, não com o número maior do catálogo.
Conceito 2 — kWh é o balde
Quilowatt-hora mede energia acumulada: é potência multiplicada por tempo. Um aparelho de 1 kW ligado por 1 hora consome 1 kWh. Simples assim.
Na prática do elétrico, kWh aparece em dois lugares:
No tamanho da bateria. Um Dolphin Mini tem bateria de 38 kWh (versão Comfort). Isso é o “tamanho do balde”: a energia total que cabe quando está 100% cheio. O Atto 3 tem 60 kWh — balde maior, mais autonomia.
Na conta de luz. A concessionária cobra por kWh consumido. Se você colocou 30 kWh de energia no carro durante o mês e sua tarifa é R$ 0,90/kWh, gastou R$ 27 de energia naquela recarga. É só multiplicação. Eu mostro essa conta fechada com tarifa real e bandeira tarifária no comparativo de quanto sai carregar em casa contra um eletroposto.
A sacada: o kWh é a única unidade que aparece tanto na sua bateria quanto na sua fatura. É a “moeda” da energia. Por isso eficiência se mede em kWh/100km — quantos quilowatts-hora o carro gasta pra rodar 100 km. Quanto menor, mais barato roda.
Conceito 3 — kW e kWh trabalham juntos no tempo
Aqui é onde a confusão custa horas da sua vida. Use a fórmula:
Tempo = energia que falta ÷ potência.
Exemplo real. Dolphin Mini com 20% de bateria, quero chegar a 80%. São 60% de uma bateria de 38 kWh = 22,8 kWh que faltam. Na minha wallbox de 7 kW:
22,8 kWh ÷ 6,6 kW (limite do carro, não os 7 kW da wallbox) = 3,5 horas.
Agora o mesmo carro num eletroposto DC de recarga rápida de 50 kW. A corrente contínua não passa pelo carregador de bordo — vai direto pra bateria. Os mesmos 22,8 kWh entram em:
22,8 kWh ÷ 50 kW = 0,46 hora, ou cerca de 27 minutos.
Mesma quantidade de energia (kWh), velocidade diferente (kW), tempos completamente diferentes. É por isso que recarga em casa é pra pernoite e recarga DC é pra viagem. E é por isso que perguntar “quantos kWh carrega por hora?” não faz sentido — o que carrega por hora é medido em kW, que é a própria potência.
Montei uma tabela rápida com a mesma recarga de 20% a 80% (22,8 kWh) em diferentes potências:
| Potência | Tipo | Tempo (Dolphin Mini, 22,8 kWh) |
|---|---|---|
| 2,2 kW (tomada comum) | AC | ~10h20 |
| 3,7 kW (tomada 220V reforçada) | AC | ~6h10 |
| 6,6 kW (limite do carro em wallbox 7-22 kW) | AC | ~3h30 |
| 50 kW (eletroposto DC) | DC | ~27 min |
| 150 kW (eletroposto DC, mas carro limita) | DC | ~27 min (carro só puxa 50 kW) |
Repare na última linha: na recarga DC de 150 kW, o tempo não cai, porque o teto de recarga DC do Dolphin Mini é 50 kW. A “torneira” maior não adianta se o “balde” não aceita receber tão rápido. Esse é o mesmo princípio que explica por que a curva de recarga DC despenca depois dos 80%: o carro vai fechando a torneira pra proteger a química da bateria.
Onde isso falha
A fórmula tempo = energia ÷ potência é uma boa aproximação, mas não é exata na vida real. Três motivos:
Perdas de conversão. Recarga AC perde de 8% a 15% de energia no carregador de bordo (vira calor). Você paga por 33 kWh na conta pra colocar 30 kWh na bateria. Isso aumenta o tempo e o custo reais um pouco acima da conta limpa.
A curva de recarga não é reta. Em DC, a potência cai conforme a bateria enche — então “50 kW” é o pico, não a média. De 20% a 80% você fica perto do pico; de 80% a 100% a velocidade despenca. Por isso quase todo mundo recomenda parar em 80% na estrada.
Temperatura. No frio, a bateria limita a potência de recarga pra se proteger. Numa manhã de 8°C em Curitiba, seu DC de 50 kW pode começar puxando 30 kW até a bateria aquecer.
Mesmo com essas ressalvas, a fórmula te dá uma estimativa boa o suficiente pra decidir wallbox, planejar parada de viagem e conferir se um anúncio está falando bobagem. E te blinda do vendedor que jura que a wallbox “de 22 kWh” carrega seu carro em dez minutos.
A regra que eu repito pra todo cliente: kW é o que você contrata; kWh é o que você paga e o que move o carro. Decore essa frase e você nunca mais cai na pegadinha da letrinha.
Fontes
- ABNT NBR IEC 61851-1: Sistema de recarga condutiva para veículos elétricos — requisitos gerais (definições de potência AC/DC) — abnt.org.br
- BYD Brasil: Especificações técnicas Dolphin Mini (capacidade de bateria e carregador de bordo) — byd.com/br
- U.S. Department of Energy / Alternative Fuels Data Center: EV Charging Power Levels (definições kW vs kWh, eficiência de conversão AC) — afdc.energy.gov
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


