Etiqueta INMETRO de eficiência no elétrico: como ler o adesivo que diz o consumo real (e o que ele esconde)
Aquele adesivo colorido no vidro do elétrico tem mais informação útil do que o folheto inteiro da concessionária. Mostro o que cada número significa, como comparar dois modelos pela etiqueta e por que o "A" verde nem sempre é o que parece.
Tem um adesivo colado no vidro de quase todo elétrico no showroom que o vendedor nunca aponta. É colorido, tem uma letra grande de A a E e um monte de número pequeno embaixo. A maioria dos compradores acha que é decoração regulatória — e passa direto. Erro. Aquele adesivo é a única peça de informação na concessionária que foi medida por terceiro, sob protocolo, e não escrita pelo marketing da montadora.
Eu projeto instalação de recarga e a primeira coisa que peço quando alguém me manda um modelo pra avaliar é a foto da etiqueta — não o folheto. Porque o folheto fala em km de autonomia (número que muda com o pé do motorista), e a etiqueta fala em eficiência (quanta energia o carro gasta pra andar). Eficiência é o que dita sua conta de luz e o tamanho do carregador que você vai instalar.
O que de fato importa ler nessa etiqueta
São cinco campos. Quatro valem ouro, um é quase inútil pra elétrico. Vou na ordem em que olho:
1. A classificação por letra (A a E) — mas dentro da categoria. A faixa colorida com a seta na letra é a nota relativa de eficiência. O detalhe que ninguém explica: a comparação é dentro do mesmo porte de veículo. Um SUV elétrico “A” e um hatch elétrico “A” não gastam a mesma energia — cada um é “A” comparado aos pares do tamanho dele. Não compare letra entre categorias diferentes. Compare número.
2. O consumo energético (MJ/km). Esse é o número-rei e o que menos gente entende. A etiqueta do PBE Veicular do INMETRO traz o consumo em megajoule por quilômetro. Quanto menor, mais eficiente. Pra traduzir pra algo que cabe na cabeça: divida por 3,6 e você tem o consumo aproximado em kWh/km. Multiplique por 100 e tem o kWh/100km — a métrica que eu uso pra tudo.
3. A autonomia (km). Vem medida em ciclo combinado. É mais honesta que o WLTP de catálogo europeu, mas ainda é laboratório. Trate como teto otimista, não como média.
4. A potência do motor e a categoria. Confirma se você está olhando a versão certa — a mesma família de modelo costuma ter duas ou três versões de bateria/motor com etiquetas diferentes.
5. A emissão de CO2 (g/km). Pra elétrico puro, o campo aparece zerado ou com a metodologia “do poço à roda”. É o campo menos útil pra decidir entre dois BEVs. Ignore na comparação direta.
A conta que transforma a etiqueta em reais
Aqui está o pulo do gato que vale a leitura inteira. Pegue o consumo em kWh/100km da etiqueta e faça uma conta de padaria:
Custo por mês = (km que você roda no mês ÷ 100) × kWh/100km × tarifa por kWh
Exemplo concreto, com número de etiqueta real. O Geely EX5 homologado no Brasil bateu 413 km no ciclo INMETRO com uma bateria de 60,2 kWh — isso dá cerca de 14,6 kWh/100km na etiqueta. Quem roda 1.500 km/mês e paga R$ 0,89/kWh (tarifa residencial real com bandeira em boa parte do Sudeste) gasta:
(1.500 ÷ 100) × 14,6 × 0,89 = R$ 195/mês — em ciclo de laboratório.
Na vida real, com ar ligado em São Paulo no verão e trecho de rodovia, eu somo de 20% a 30% por cima. Então a conta honesta de bolso desse carro fica entre R$ 234 e R$ 254/mês. Ainda é menos da metade do que um equivalente a combustão faria. Mas é esse o número que importa — não o “economize até 90%” do banner.
Comparando dois modelos pela etiqueta — o método que uso
Quando alguém me manda duas opções, eu monto uma tabelinha só com o que está na etiqueta. Não preciso de mais nada:
| O que ler | Onde está | Como decidir |
|---|---|---|
| kWh/100km (eficiência) | converter do MJ/km | menor vence — é sua conta de luz |
| Autonomia ciclo (km) | campo de autonomia | corte 20-25% pra estimar a real BR |
| Capacidade da bateria (kWh) | ficha/etiqueta da versão | maior = mais autonomia, mas mais peso e tempo de recarga |
| Letra na faixa | seta na escala | só vale dentro da mesma categoria |
O erro mais comum que vejo: a pessoa escolhe pela autonomia maior e ignora a eficiência. Aí compra um SUV de 80 kWh que faz 450 km mas gasta 18 kWh/100km, quando um modelo de 60 kWh com 14 kWh/100km resolveria a vida dela rodando dentro da cidade — e custaria menos por mês pra carregar. Bateria grande não é eficiência. É só tanque maior.
Minha leitura — e onde a etiqueta engana
Na minha experiência projetando recarga, a etiqueta é a fonte mais confiável que existe na concessionária. Dito isso, ela tem três pontos cegos que você precisa saber:
Primeiro, não mede recarga em corrente contínua nem perda de carregador. O kWh que sai da tomada de casa é maior que o kWh que entra na bateria — tem perda de 10% a 15% no carregador e na fiação. A conta real de luz é um pouco pior que a da etiqueta por causa disso.
Segundo, clima tropical não entra no ciclo. O ar-condicionado puxando bateria em dia de 35°C não aparece em nenhum campo. É a maior diferença entre etiqueta e mundo real no Brasil.
Terceiro, a etiqueta é da versão homologada — e o processo de homologação demora. Se o modelo recebeu uma atualização de software de eficiência depois da certificação, a etiqueta pode estar defasada. Vale entender como funciona o caminho de homologação INMETRO/IBAMA antes do carro chegar pra saber de quando é aquele número.
Perguntas que recebo direto
A etiqueta é obrigatória em todo elétrico? A adesão ao PBE Veicular do INMETRO é, na prática, condição de mercado para a maioria dos veículos novos vendidos no Brasil, e os elétricos participam do programa. Se um modelo no showroom não tem a etiqueta visível, peça a ficha — desconfie de quem enrola.
“A” verde é sempre melhor que “B”? Dentro da mesma categoria, sim, em eficiência relativa. Entre categorias diferentes, não diz nada. Sempre vá ao número de MJ/km ou kWh/100km pra comparação de verdade.
A autonomia da etiqueta bate com a que vou ter? Não. É ciclo de laboratório. Corte 20-25% pra uma estimativa BR conservadora, mais ainda se você roda muita rodovia em alta velocidade.
O checklist da etiqueta na hora de comprar
- Tire foto da etiqueta da versão exata que você vai comprar — não da versão topo exposta no showroom se você quer a de entrada.
- Converta o MJ/km em kWh/100km (divide por 3,6, multiplica por 100) e anote — é seu número de comparação.
- Faça a conta de custo mensal com sua quilometragem e sua tarifa, e some 20-30% pro mundo real BR.
- Compare dois modelos só por eficiência e bateria, ignorando a letra entre categorias diferentes.
- Antes de fechar, calcule o custo total de propriedade considerando degradação real da bateria — a etiqueta cobre o consumo, não a vida útil.
- Cruze com um checklist de compra completo: a lista do que checar antes de comprar um elétrico coloca a etiqueta no contexto do resto da decisão.
A etiqueta não é decoração. É a única página do “folheto” que alguém mediu de fora. Aprender a ler os cinco campos custa cinco minutos e te dá o número que o vendedor não vai oferecer — quanto aquele carro realmente vai pesar na conta de luz todo mês.
Fontes:
- INMETRO — Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) Veicular: https://www.gov.br/inmetro/pt-br/assuntos/avaliacao-da-conformidade/programa-brasileiro-de-etiquetagem
- INMETRO — Tabelas de consumo/eficiência energética de veículos: https://www.gov.br/inmetro/pt-br
- IBAMA — Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (PROCONVE): https://www.gov.br/ibama/pt-br
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


