Hyundai e Kia: por que as coreanas somem do ranking de elétricos no Brasil — e o que vem por aí
Ioniq 5, EV6 e EV9 existem, são bons carros e a rede Hyundai-Kia está no Brasil. Então por que eles não aparecem nos top 10 de emplacamentos? A resposta é estratégica — e muda em 2026.
Em março, um leitor do blog me mandou a mesma dúvida que já chegou de pelo menos uns quinze endereços diferentes: “Testei o Ioniq 5 na Europa. Adorei. Cheguei no Brasil, fui na Hyundai — me mandaram ver o Creta flex.” Ele não entendia por quê a marca tinha o produto e não o vendia.
É uma das perguntas mais legítimas do mercado brasileiro de elétricos. Hyundai e Kia são, no papel, dois dos melhores fabricantes de EV do mundo. O Ioniq 5 ganhou prêmio de carro do ano na Europa em 2022. O Kia EV6 é considerado por testes independentes um dos SUVs elétricos mais eficientes abaixo de US$ 60 mil. E os dois existem no Brasil — só que em volume de formiga, a preços que afastam todo mundo exceto quem tem o terceiro carro na garagem.
O que explica esse paradoxo é uma combinação de estratégia consciente, estrutura de importação e cronograma de produção local que a maioria dos blogs de carro não conectou ainda. Vou tentar conectar aqui.
O que aconteceu: coreanas chegaram, mas não pra competir de volume
O Hyundai Ioniq 5 foi homologado e lançado oficialmente no Brasil em 2022. O Kia EV6, em 2023. São carros reais, com INMETRO, com rede de assistência técnica do grupo Hyundai-Kia e com peça disponível.
Mas os números de emplacamento contam a história com honestidade brutal. Em abril/2026, o Ioniq 5 não apareceu nos top 20 de elétricos puros pelo terceiro mês consecutivo, segundo dados da Fenabrave e da ABVE. O Dolphin Mini sozinho emplacou mais em dois dias do que Ioniq 5 e EV6 juntos em quatro meses.
Por que? Preço. O Ioniq 5 entra a R$ 369.990 na versão de entrada. O EV6 começa em R$ 399.990. Nisso, você compra um BYD Sealion 7 por R$ 339.800, sobra troco e ainda paga a instalação do wallbox. A diferença não é de desempenho — o Ioniq 5 e o EV6 são carros melhores em vários critérios subjetivos. É de matemática de importação.
O grupo Hyundai-Kia vende a maioria dos seus elétricos no Brasil vindo da Coreia do Sul. Isso significa tarifa de importação integral, sem benefício do programa Mover (que exige algum compromisso de produção local ou associação com montadora com fábrica ativa no País). A BYD vende Dolphin Mini fabricado em Camaçari e o BYD aplica o crédito Mover. A diferença na precificação final não é coincidência — é o reflexo direto de quem tem fábrica e quem não tem.
Por que isso importa pra você
Aqui entra o elemento que ninguém parou pra calcular com clareza: o grupo Hyundai-Kia não está dormindo. Está esperando o momento certo pra atacar — e as peças estão se movendo em 2026.
O HMG (Hyundai Motor Group) anunciou em 2025 um investimento de R$ 1,1 bilhão na fábrica de Piracicaba (SP), onde já produz o Creta e o HB20. O plano divulgado — e confirmado por duas fontes setoriais que acompanho — é preparar a linha de Piracicaba pra receber versões eletrificadas a partir do segundo semestre de 2027. O modelo mais mencionado nos bastidores é o próximo Creta elétrico, que já é vendido na Índia como Creta Electric a preços equivalentes a R$ 180-200 mil e tem plataforma similar ao HEV global do Hyundai.
Se isso se confirmar, muda completamente o cálculo de competitividade. Um Creta elétrico fabricado em Piracicaba com crédito Mover poderia sair abaixo de R$ 200 mil. Isso botaria Hyundai direto na faixa que hoje pertence a BYD e GWM — e com uma rede de concessionárias que existe há 30 anos no Brasil, com capilaridade que nenhum chinês tem hoje.
| Marca | Modelo elétrico com rede ativa | Preço entrada (mai/2026) | Produção local | Benefício Mover |
|---|---|---|---|---|
| BYD | Dolphin Mini | R$ 149.800 | Camaçari (BA) | Sim |
| GWM | Ora 5 | R$ 219.900 | Iracemápolis (SP) | Sim |
| Hyundai | Ioniq 5 | R$ 369.990 | Importado (Coreia) | Não |
| Kia | EV6 | R$ 399.990 | Importado (Coreia) | Não |
| Hyundai | Creta Electric (previsto) | ~R$ 180-200 mil (estimativa) | Piracicaba (SP) previsto 2027 | Previsto |
Fonte: tabelas públicas das marcas e levantamento editorial próprio (maio/2026). Dados de produção local e Mover verificados na Anfavea e MDIC.
O que fazer com isso agora
Depende do seu momento de compra.
Se você quer elétrico nos próximos 6 meses: Ioniq 5 e EV6 são produtos excelentes, mas o preço só fecha se o seu orçamento vai além de R$ 380 mil e você valoriza o diferencial de conforto e tecnologia de bordo que eles entregam frente ao Sealion 7. Comprar um hoje não é erro — é escolha consciente de produto premium com importação integral. O comparativo de custo total entre elétrico e combustão ainda fecha bem pra quem roda mais de 18 mil km/ano.
Se você pode esperar até 2027-2028: o Creta elétrico fabricado em Piracicaba é a aposta que eu faria. Se a Hyundai confirmar produção local com crédito Mover, vai ter rede sólida, peças disponíveis, preço agressivo e um histórico de confiabilidade mecânica que os chineses ainda estão construindo no Brasil. Não é certo — é previsão com rationale, não fato.
Se você está entre R$ 200-280 mil hoje: essa faixa é quente e coreana nenhuma serve ainda. O comparativo de elétricos até R$ 150 mil mostra o que existe abaixo da faixa. Acima dela até R$ 280 mil, a briga hoje é Geely EX5, GWM Ora 5 e BYD Atto 3.
A lição
As coreanas não desistiram do Brasil elétrico. Elas fizeram o cálculo que os chineses fizeram antes delas: vender caro enquanto prepara fábrica, e atacar com preço quando a fábrica ligar. BYD fez isso. GWM fez isso. Geely está fazendo. Hyundai-Kia está na mesma fila — só com o cronograma uns 18 meses mais lento.
A diferença é que quando as coreanas entrarem com produto local, vão ter algo que os chineses levaram anos pra construir: uma rede de assistência técnica que o brasileiro já conhece e confia. A comparação de rede de assistência das montadoras no Brasil mostrou que essa capilaridade é, hoje, um dos critérios mais subestimados na decisão de compra de elétrico.
Quem vai ganhar a corrida entre o Creta elétrico da Hyundai e o próximo elétrico de entrada da BYD? Minha aposta: os dois vão coexistir em faixas ligeiramente diferentes, e o comprador brasileiro vai ter mais opções abaixo de R$ 200 mil em 2028 do que imagina. O mercado que hoje está concentrado em duas ou três marcas vai parecer bem diferente daqui a dois anos — e as coreanas são parte dessa reconfiguração.
Fontes
- Fenabrave — Emplacamentos mensais de elétricos e plug-ins Brasil (Fenabrave, mai/2026)
- ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico, boletins mensais (ABVE, 2026)
- Anfavea — Produção local e dados do programa Mover (Anfavea, 2026)
- Hyundai Motor Group — Investor Relations, relatório anual 2025 (HMG, 2025-2026): investimento R$ 1,1 bilhão em Piracicaba e planos de eletrificação América Latina
- Kia Media — Kia EV6 especificações e preço Brasil (Kia Brasil, mai/2026)
- Tabelas oficiais de preços Hyundai Brasil e Kia Brasil (mai/2026)
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total. Editor do Carros Elétricos Brasil.


