Pular para o conteúdo
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Carros Elétricos Brasil CARROS ELÉTRICOS BR
Notícias

Quanta autonomia cada 10 km/h a mais custa no elétrico? A conta na estrada

De 100 para 120 km/h, o elétrico gasta 22% mais energia e você ganha só 30 minutos numa viagem de 300 km. Montei a conta passo a passo, com premissas à vista.

Eng. Rafael Iizuka 5 min de leitura
Carro seguindo por rodovia vazia ao entardecer, visto por trás
Carro seguindo por rodovia vazia ao entardecer, visto por trás

Dois motoristas saem de São Paulo no mesmo sábado, no mesmo modelo de elétrico, com 100% de bateria. Um viaja a 90 km/h, o outro a 120. O primeiro faz a primeira parada de recarga mais de 90 km depois do segundo. Não é azar nem defeito: é a física cobrando em prestação quadrada.

A versão de 30 segundos

Quase toda a perda de autonomia na estrada vem do ar. A força do vento contra o carro cresce com o quadrado da velocidade, então acelerar 10% custa bem mais que 10% de energia. Numa viagem de 300 km, rodar a 120 em vez de 100 poupa 30 minutos e gasta cerca de 22% mais bateria. Nos limites brasileiros, o ponto mais honesto de equilíbrio fica entre 100 e 110 km/h.

Conceito 1: o ar manda, e cobra ao quadrado

Na cidade, a energia vai pra vencer inércia e semáforo, e o freio regenerativo devolve parte. Na rodovia, o carro entra em regime constante, e a resistência do ar vira a maior fatia da conta. A força aerodinâmica sobe com o quadrado da velocidade. Dobrou a velocidade, quadruplicou a força.

Os testes que encontrei vão na mesma direção. Num teste do ÖAMTC (clube automobilístico austríaco), relatado pelo site alemão e-mobileo, um Renault Zoe gastou 21,4 kWh/100 km a 100 km/h de média e mais de 27,8 kWh/100 km a 130 km/h: uns 30% a mais. A InsideEVs relatou, numa viagem europeia com oito elétricos, perda de cerca de 40% do alcance nos dias de autoestrada a 130 km/h, comparados aos de estrada comum.

Autonomia WLTP de catálogo é medida em ciclo misto e comportado. Quem já leu como calcular a autonomia real do seu elétrico sabe que o número da ficha é teto, não promessa.

Conceito 2: a minha tabela, com premissas à mostra

Ninguém publica essa conta com as premissas na mesa, então vai aqui. Imagine um elétrico hipotético que gasta 15 kWh/100 km a 100 km/h, com bateria utilizável de 50 kWh. Suponho que, a 100 km/h, metade do consumo é aerodinâmica e metade é rolagem de pneu e perdas internas (a rolagem fica constante). A parte do ar escala com o quadrado da velocidade. É simplificação, mas reproduz a ordem de grandeza dos testes acima.

VelocidadeConsumo (kWh/100 km)Autonomia (km)Tempo em 300 kmEnergia nos 300 km
90 km/h13,63683h2040,7 kWh
100 km/h15,03333h0045,0 kWh
110 km/h16,63022h4449,7 kWh
120 km/h18,32732h3054,9 kWh

Leia assim: de 100 para 120 km/h você economiza 30 minutos e consome 9,9 kWh a mais. Com 273 km de autonomia, a viagem de 300 km deixa de caber numa carga só. A 110, sobram uns 2 km de folga, o que na prática também pede parada. Já a 100 km/h, com 333 km de alcance, a viagem cabe com sobra de 10%.

O pior degrau é o último. Cada 10 km/h a mais custa 1,4 kWh/100 km em 90-100, 1,6 em 100-110 e 1,7 em 110-120. Dá pra ver o tamanho do crescimento: o benefício em minutos encolhe a cada degrau, e o custo em energia sobe.

Conceito 3: o tempo que você ganha é menor do que parece

Aqui está o elemento que o painel esconde. Passar de 100 para 110 km/h ganha só 16 minutos em 300 km. De 110 para 120, só 14. E uma parada de recarga rápida dura bem mais que isso, já que a curva de recarga em corrente contínua é lenta nos últimos 20%.

Faça a conta do custo da pressa. Os 9,9 kWh extras de 120 contra 100 km/h, a R$ 2,50 o kWh num carregador rápido (valor hipotético, veja o preço da sua rede), são cerca de R$ 25. Pagar R$ 25 por 30 minutos pode ser bom negócio. Mas se a velocidade mais alta obrigar uma parada que você não faria, o tempo ganho vira tempo perdido. Para dimensionar o impacto anual dessas paradas, o post sobre quanto o carregador rápido pesa no custo anual do elétrico ajuda.

O que a lei brasileira diz

O Código de Trânsito (Lei 9.503/97, art. 61) fixa, na ausência de placa, 110 km/h para automóveis em rodovia de pista dupla e 100 km/h em pista simples. Trechos específicos de São Paulo permitem 120 km/h por sinalização, e a Artesp, agência que regula as rodovias paulistas, vem reduzindo limites em pontos de movimento. Ou seja: os 130 km/h dos testes europeus nem são opção aqui. O que importa pro brasileiro é a faixa de 90 a 120.

Minha leitura: 100 a 110 km/h é o ponto doce. Abaixo disso o tempo extra pesa mais que a economia; acima, a conta de energia dispara e você começa a planejar paradas que não precisava.

Onde a minha conta falha

Modelo simples tem limite. Carros com boa aerodinâmica (coeficiente baixo) perdem menos na estrada, e SUVs altos perdem mais. Vento de frente, subida longa, ar-condicionado e rack de teto que reduz a autonomia deslocam tudo. Rodas grandes também pesam, e o efeito da roda maior na autonomia real tem post próprio. A divisão 50/50 entre ar e rolagem é suposição minha: em carro pesado, a rolagem pesa mais e a curva fica mais suave. Use a tabela pra ter a ideia da forma da curva, não pra prometer quilômetro.

O que fazer na próxima viagem

  • Cruzeiro entre 100 e 110 km/h quando a viagem exigir parada de recarga de qualquer jeito.
  • Quando faltar bateria pro destino, baixe 10 km/h antes de procurar outro carregador: costuma render mais que desligar o ar.
  • Use o controle de cruzeiro em trecho plano; acelerar e soltar gasta mais.
  • Planeje a parada pelo percentual de bateria na chegada, não pela distância; o guia de como planejar a recarga numa viagem longa de elétrico tem o roteiro.

Fontes

E

Escrito por

Eng. Rafael Iizuka

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

Continue lendo · Notícias

Ver tudo →