Elétrico e híbrido entraram no Imposto Seletivo — ao lado do cigarro
A reforma tributária colocou carro elétrico e híbrido na mesma lista de cigarro e bebida alcoólica no Imposto Seletivo. Veja os critérios que vão pesar no preço e o que ainda falta decidir.
Se você comprou um elétrico nos últimos dois anos achando que estava do lado bonzinho da história fiscal — aquele que o governo recompensa com IPI zero, isenção de IPVA em vários estados, vaga reservada — a Câmara dos Deputados discorda de você. Na reforma tributária, carro elétrico e híbrido entraram na mesma lista de cigarro, bebida alcoólica e aposta: o Imposto Seletivo, que quem escreve lei em Brasília apelidou, sem ironia, de “imposto do pecado”. Caminhão a diesel, que sai de fábrica cuspindo fuligem, ficou de fora dessa lista.
A versão de 30 segundos
A reforma tributária (Emenda Constitucional 132/2023, regulamentada pela Lei Complementar 214/2025) substitui PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS por três tributos novos: CBS (federal), IBS (estados e municípios) e o Imposto Seletivo, que incide só sobre produtos considerados nocivos à saúde ou ao ambiente. O grupo de trabalho da Câmara que fechou o texto do PLP 68/2024 decidiu, em julho de 2024, que carro elétrico e híbrido entram nessa lista — a alíquota exata ainda depende de lei ordinária futura, mas os critérios já foram definidos: potência, eficiência energética, pegada de carbono e reciclabilidade de materiais. Caminhão a diesel foi isentado. A Anfavea (associação das montadoras) chama a medida de “marcha ré” e pede a exclusão dos veículos da lista.
Conceito 1: por que existe um imposto pra “pecado” dentro da reforma
O Imposto Seletivo não é imposto novo cobrado em cima dos outros — é uma peça específica desenhada pra desestimular consumo de um punhado de categorias: cigarro, bebida alcoólica, aposta e, agora, alguns veículos. A lógica original era simples e conhecida (é a mesma coisa que já existe pra cigarro): taxar mais o que causa dano coletivo, pra sinalizar preço mais alto e reduzir consumo. O problema é que “dano coletivo” nunca tinha incluído carro antes — o carro sempre foi tributado por outra lógica (arrecadação + proteção de indústria), não por “isso faz mal, então cobra mais caro”. Coloquei o calendário completo da transição — CBS e IBS entrando em regime misto a partir de 2026, regime cheio só em 2033 — no guia de tributação de elétricos em 2026, que vale reler porque o Imposto Seletivo é só uma camada dentro desse calendário maior, não o quadro inteiro.
Conceito 2: os 4 critérios que vão decidir o quanto seu carro paga
Nenhuma alíquota final foi publicada até agora — mas os quatro critérios que vão alimentar a fórmula já estão na lei complementar:
| Critério | O que mede | Por que entrou na conta |
|---|---|---|
| Potência | cv/kW do motor | quanto mais potente, mais “supérfluo” pro legislador |
| Eficiência energética | consumo por km rodado | prêmio pra quem gasta menos energia pra andar a mesma distância |
| Pegada de carbono | emissão no ciclo de vida, não só no escapamento | é aqui que a bateria entra na conta — mineração de lítio e níquel pesa |
| Reciclabilidade dos materiais | quanto do carro (e da bateria) pode voltar pra cadeia produtiva | pune bateria sem rota clara de reciclagem no Brasil |
O deputado Hildo Rocha (MDB-MA), relator do grupo de trabalho, resumiu o raciocínio numa frase que vale citar porque explica o critério de pegada de carbono melhor que qualquer nota técnica: “é um carro que, do berço ao túmulo, polui. Principalmente no túmulo” — referência ao destino da bateria de lítio depois que perde capacidade. Concordo com o diagnóstico e discordo da solução: o Brasil ainda não tem logística reversa de bateria estruturada em escala — cobrar mais caro do carro por um problema que o próprio poder público ainda não resolveu de regulamentação é taxar o sintoma e ignorar a causa.
Conceito 3: a contradição que a Anfavea põe no papel — e a conta que ninguém fechou ainda
Aqui mora o argumento mais forte contra a medida, e não veio de fabricante de elétrico: caminhão a diesel, que emite direto no escapamento todo santo dia de uso, ficou fora do Imposto Seletivo. Carro elétrico, que não emite nada rodando, pode entrar — pela pegada de carbono da bateria, calculada uma única vez, na fabricação. Isso é inverter a régua: pune-se o pico de emissão na produção e perdoa-se a emissão contínua no uso. A Anfavea foi direta ao ponto no posicionamento oficial: o setor automotivo já reduziu poluentes urbanos em mais de 95% desde 1986, tem a frota mais descarbonizada do planeta segundo a entidade, e o Imposto Seletivo “só vai trazer prejuízo à saúde e segurança da população” ao travar a renovação da frota — carro velho polui mais e é mais inseguro que carro novo, elétrico ou não.
Fiz a conta que ainda não vi ninguém fazer com o número que já está publicado: o novo regime de CBS + IBS soma, na estimativa mais citada do setor tributário, algo perto de 26,5% de carga sobre qualquer veículo — elétrico, híbrido ou a combustão, sem distinção. Essa base já é igual pra todo mundo. O que hoje faz um elétrico custar menos que o equivalente a combustão não é essa base — é o IPI zero somado às isenções de ICMS e IPVA que boa parte dos estados ainda dá, listadas no nosso mapa de incentivos estaduais. O Imposto Seletivo não mexe nessa base de 26,5% — ele soma em cima, e só pra quem a fórmula (potência × eficiência × carbono × reciclabilidade) classificar como “pecado”. Se a alíquota que sair da lei ordinária tratar elétrico parecido com carro a combustão de mesma potência, a vantagem de preço que hoje empurra gente pro Dolphin Mini ou pro Kwid E-Tech não desaparece por decreto — desaparece porque a isenção que criava essa vantagem tem prazo de validade e o Imposto Seletivo pode chegar bem na hora em que ela vence, sem que ninguém tenha marcado essa coincidência no calendário.
Isso não é exclusivo de carro nacional: quem está pensando em importar antes da tarifa de 35% bater em julho também deveria somar o Imposto Seletivo na conta de “vale antecipar a compra” — porque as duas mudanças miram o mesmo bolso, em janelas de tempo parecidas.
Onde isso falha
Minha leitura tem um limite claro: a alíquota de Imposto Seletivo pra veículo não está fechada, e pressão de montadora historicamente pesa nesse tipo de definição no Brasil — a Anfavea já entrou nessa briga publicamente e pediu a exclusão total dos veículos da lista. É bem possível que a versão final saia com alíquota simbólica ou zero pra elétrico puro, mirando só híbrido leve e carro grande a combustão. Também é possível que a lei ordinária nem saia do papel antes de 2027, empurrando essa discussão inteira pra depois da próxima eleição. O que dá pra afirmar com segurança hoje é só isto: o critério está desenhado, a intenção política de taxar elétrico como “pecado ambiental” existe formalmente no texto aprovado, e quem está decidindo comprar carro nos próximos 12 meses não deveria assumir que a vantagem de preço de hoje é permanente.
Fontes
- Anfavea — posicionamento oficial sobre o Imposto Seletivo
- Câmara dos Deputados — Grupo de trabalho da reforma tributária inclui carros elétricos no Imposto Seletivo
- CNN Brasil — Comprar um carro elétrico ou híbrido vai ficar mais caro em 2026; entenda
- Tax Group — Carros elétricos x Reforma Tributária: entenda as mudanças e os impactos
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total. Editor do Carros Elétricos Brasil.


