sábado, 30 de maio de 2026
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Leapmotor A10 no Brasil: o que o B03X promete e o que o filtro BR muda

A Stellantis levou a imprensa pra Hangzhou pra testar o A10. Autonomia de 350 km (Inmetro), preço estimado entre R$ 140 mil e R$ 180 mil. Analisei o que muda pro comprador BR.

Carolina Lemes 5 min de leitura
SUV elétrico compacto branco estilo Leapmotor A10 estacionado em ambiente urbano limpo
SUV elétrico compacto branco estilo Leapmotor A10 estacionado em ambiente urbano limpo

No fim de abril, a Stellantis embarcou um grupo de jornalistas pra Hangzhou — o mesmo ritual que fizeram em 2025 quando apresentaram o B10 e o C10. A lógica é a mesma: te mostram o carro na China antes de confirmar se ele vem pro Brasil. Na prática, isso já é a confirmação. O A10 foi o carro mais comentado nos corredores da fábrica, e a Leapmotor vendeu 40 mil unidades nas primeiras quatro semanas após o lançamento na China, em março de 2026 (CnEVPost, 26/03/2026). Peguei o volante rapidamente. Aqui vai a leitura sem filtro de relações públicas.

A versão de 30 segundos

O A10 é um SUV compacto de 4,27 m. Bateria de 53 kWh, autonomia de 505 km pelo ciclo chinês (CLTC) — o que vira algo em torno de 350 km pelo Inmetro, conforme a própria Leapmotor estima para o modelo global B03X (AutoPapo, 22/04/2026). Recarga de 30% a 80% em 16 minutos com DC rápido. Motor traseiro de 205 cv. Preço estimado: R$ 140 mil a R$ 180 mil, segundo a mesma lógica de precificação do B10 e C10 no Brasil.

A questão não é se o carro é bom. É boa. A questão é: num segmento que já tem BYD Dolphin (R$ 119.990 em maio/2026), Geely EX2 e GWM Ora 03, o A10 tem argumento suficiente pra justificar R$ 140 mil? Vou desenvolver em três blocos.

Conceito 1: o carro em si — o que testei e o que o marketing omite

O A10 usa suspensão McPherson na frente e eixo de torção atrás — mesma configuração do Dolphin Mini, aliás. Em pista, o acerto é macio demais pro meu gosto. A Leapmotor assumiu que vai recalibrar a suspensão pro mercado brasileiro, como fez com B10 e C10. Ponto a favor: pelo menos admitem o problema antes de lançar.

Interior é minimalista: tela central de 14,6 polegadas, painel de 8,88 polegadas, banco do motorista com ajuste elétrico, teto solar panorâmico. O porta-malas tem compartimento extra sob a tampa — espaço útil para o kit de recarga, que costuma ficar jogado no banco traseiro nos elétricos que não planejam isso.

O que o marketing não comenta: o assoalho plano na segunda fileira é genuíno (graças à plataforma elétrica nova), o que o Dolphin Mini não entrega da mesma forma. Ponto real, não hype.

Conceito 2: a conta de autonomia com filtro de realidade BR

Em 2026, o BYD Dolphin Mini (38 kWh, Inmetro 280 km) entrega na prática entre 200 km e 230 km em rodovia a 110 km/h — isso é público e fácil de medir. O A10, com bateria 40% maior (53 kWh), deveria entregar proporcionalmente mais. Mas “40% a mais de bateria” não vira 40% mais km se o veículo é mais pesado.

Fiz o cálculo com as eficiências declaradas:

ModeloBateria (kWh)Autonomia Inmetro estimadaEficiência implícita
BYD Dolphin Mini38280 km13,6 kWh/100km
Leapmotor A10 (53 kWh)53~350 km15,1 kWh/100km
BYD Dolphin (60 kWh)60~400 km15,0 kWh/100km

O A10 consome um pouco mais por km que o Dolphin Mini — o carro é maior e mais pesado. Nada dramático, mas é o dado honesto que separa “350 km de folheto” de “350 km na sua cidade”. Com tarifas ANEEL bandeira amarela ENEL-SP de R$ 0,89/kWh (maio/2026), um percurso de 100 km no A10 custa cerca de R$ 13,50 — contra R$ 12,10 no Dolphin Mini. Diferença de R$ 1,40 por 100 km: irrelevante pro custo operacional, relevante como dado preciso.

Conceito 3: a jogada da Stellantis — e onde o Brasil entra no cálculo

A produção local é o argumento mais forte do A10 — e o menos comentado pelos blogs que reescrevem o press release. A Stellantis confirmou que B10 e C10 serão fabricados na fábrica de Goiana (PE) a partir de 2027. A vice-presidência da Leapmotor, questionada pela imprensa brasileira em Hangzhou, não confirmou o A10 na linha de Goiana — mas deixou a porta aberta: “se for de um ponto de vista de negócio que traga retorno, a empresa estará sempre aberta a expandir” (AutoPapo, 22/04/2026).

Produção nacional muda o preço final. O B10 importado custaria facilmente R$ 230 mil com todos os impostos de veículo CKD — mas sai por R$ 182.990 porque é ou será montado localmente, aproveitando o MOVER e a isenção de IPI para veículos de baixo carbono. Se o A10 entrar na mesma linha, o teto de R$ 140 mil fica plausível.

Se entrar importado, a conta não fecha e o carro vai direto pra concorrência com o Dolphin (a versão maior, de R$ 143.990 em maio/2026) num segmento onde a BYD já tem reputação consolidada.

Onde isso falha

A Leapmotor ainda não confirmou o A10 pro Brasil. A Stellantis tem capacidade instalada em Goiana comprometida com Jeep, Fiat e Ram — mais B10 e C10 na fila pra 2027. Adicionar o A10 à linha pressupõe volume suficiente pra justificar o setup de montagem.

O outro risco é a rede de assistência. Quem comprou B10 ou C10 nos primeiros meses relatou demora na entrega de peças de carroceria, conforme relatos que acompanhei em grupos de proprietários no segundo trimestre de 2026. O A10, sendo modelo mais novo, chega com esse histórico ainda menor que os irmãos.

Minha leitura: o A10 é um produto melhor que o B10 pra quem quer SUV compacto com mais espaço interno e autonomia mais folgada. Mas o timing importa. Quem precisa de carro agora compra Dolphin ou B10. Quem pode esperar até 2027, o A10 pode ser a opção mais equilibrada do segmento abaixo de R$ 150 mil — se a Stellantis confirmar a produção nacional e calibrar a suspensão pro asfalto esburacado que todo mundo que mora fora de condomínio fechado conhece.

Fontes

C

Escrito por

Carolina Lemes

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

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