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quinta-feira, 15 de outubro de 2026
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Elétricos

Carro elétrico é silencioso? Na cidade, sim. Na estrada, o barulho muda de endereço

Elétrico não tem motor pra ouvir, mas na Dutra a 110 km/h o que sobra é pneu e vento — e às vezes é tão alto quanto num combustão. Entenda por que o silêncio do elétrico tem hora e lugar certos.

Carolina Lemes 6 min de leitura
Carro elétrico visto de perto rodando em rodovia, com foco no pneu e no movimento do ar ao redor da carroceria
Carro elétrico visto de perto rodando em rodovia, com foco no pneu e no movimento do ar ao redor da carroceria

Toda review de elétrico que eu já li — inclusive algumas que eu mesma escrevi — tem a mesma frase: “o silêncio impressiona”. E impressiona mesmo, no primeiro semáforo. Só que semana passada, na Dutra, levei o Ora 03 a 110 km/h por 40 minutos e o que ouvi não foi silêncio nenhum. Foi um assobio de vento no retrovisor e um chiado de pneu que eu nunca tinha notado tão alto num carro meu. O motor não fez ruído nenhum. O resto do carro fez por ele.

A tese

Elétrico é silencioso onde o silêncio é mais valioso — no trânsito parado, no estacionamento, na saída de casa de madrugada sem acordar vizinho — mas essa vantagem quase desaparece a partir de uns 60-70 km/h. Dali pra frente, quem manda no nível de ruído dentro do carro não é mais o motor (que sempre foi quieto), é o pneu tocando o asfalto e o ar batendo na carroceria. E como o elétrico costuma pesar mais que o equivalente a combustão — bateria não é leve — o pneu trabalha com mais carga e tende a soar mais, não menos.

Evidência 1: o silêncio de baixa velocidade é real e mensurável

Aqui não tem contestação. Segundo dados técnicos citados pela Michelin, um elétrico emite cerca de 56 decibéis rodando abaixo de 30 km/h — próximo do som de uma lava-louças ligada — contra cerca de 65 decibéis de um carro a combustão na mesma faixa, parecido com uma sala de aula em atividade. É diferença grande, e é exatamente por isso que a Europa e os Estados Unidos exigem o alerta sonoro artificial (o AVAS) em baixa velocidade: pedestre e ciclista contavam com o barulho do motor pra perceber o carro chegando, e esse barulho sumiu. No Brasil a regra específica pra elétrico ainda não está tão fechada quanto a europeia — a maioria dos modelos vendidos aqui traz o alerta porque já vem de fábrica pronto pro mercado global, não porque uma lei brasileira detalhada exige o formato exato do som.

A explicação mais didática que já li pra isso veio de uma comparação simples: é como ouvir um tambor e uma flauta tocando juntos. Enquanto o tambor toca, você não presta atenção na flauta. Quando o tambor para, a flauta que sempre esteve lá agora domina o que você escuta. O motor elétrico nunca foi barulhento — ele só deixou de mascarar tudo que sempre existiu ao redor do carro.

Evidência 2: na estrada, o motor para de ser a referência — e o peso conta contra você

O problema é que “tudo que sempre existiu ao redor do carro” cresce muito com velocidade. Ruído de pneu e de vento sobem de forma não linear: dobrar a velocidade não dobra o barulho, multiplica. É por isso que, segundo o mesmo material técnico da Michelin, elétricos podem ficar tão barulhentos quanto carros a combustão em velocidade de rodovia — o motor deixou de ser o fator decisivo, e o que sobra (pneu, vento, suspensão) é parecido nos dois tipos de carro, ou pior no elétrico por causa do peso extra da bateria.

Rodei os três elétricos que já tive nas mãos — Dolphin Mini, Ora 03 e agora o iCar da Caoa Chery — na mesma trecho de rodovia, mesma faixa de 100-110 km/h, janela fechada, rádio desligado. O Dolphin Mini foi o mais silencioso dos três nessa faixa, provavelmente por causa do isolamento acústico mais robusto da carroceria. O Ora 03 foi o que mais deixou passar ruído de pneu, principalmente em trecho de asfalto mais rugoso. Isso não aparece em nenhuma ficha técnica — decibel de cabine em alta velocidade não é dado que fabricante divulga no Brasil, e é exatamente por isso que vale testar antes de comprar, não confiar no que a concessionária disse sobre “silêncio total”.

Esse ruído de pneu também conversa direto com outro problema que já expliquei aqui: por que o pneu do elétrico desgasta mais rápido — é o mesmo peso extra da bateria fazendo o pneu trabalhar mais, só que de dois jeitos diferentes: gastando a banda de rodagem mais rápido e, ao mesmo tempo, empurrando mais ruído pra dentro da cabine.

Evidência 3: o fator Brasil piora a conta, não melhora

Fora as diferenças entre modelos, tem um fator que nenhum review internacional discute: o asfalto brasileiro. Rodovia com remendo, textura irregular ou concreto mais antigo gera muito mais ruído de rolamento que um asfalto liso e recém-recapeado — isso vale pra qualquer carro, mas fica mais evidente no elétrico justamente porque não tem motor abafando a diferença. Rodei o mesmo Ora 03 na pista nova da Régis Bittencourt e depois num trecho remendado da Anchieta: a diferença de ruído dentro do carro foi perceptível a ponto de eu abaixar o volume do podcast sem pensar duas vezes.

Tem ainda a escolha do pneu de fábrica, que no Brasil costuma priorizar baixa resistência ao rolamento — pneu desenhado pra render mais autonomia por kWh — e essa característica nem sempre anda de mãos dadas com isolamento acústico. Quem troca a roda original por uma maior piora os dois lados ao mesmo tempo: perde autonomia e ganha mais ruído de rolamento, porque pneu de perfil mais baixo tende a transmitir mais vibração e som pra dentro da cabine.

O contra-argumento honesto

Nem tudo está perdido, e seria desonesto fingir que elétrico ficou “tão barulhento quanto combustão” de forma genérica. Fabricante sabe do problema e está investindo pesado nisso: a própria Michelin cita tecnologia de espuma acústica dentro do pneu que reduz o ruído percebido em até 20%, e montadoras de elétrico mais caro costumam usar vidro duplo laminado e mais material de vedação exatamente pra compensar a ausência do “colchão sonoro” que o motor a combustão dava de graça. O gap entre modelo bom e modelo ruim nesse quesito é enorme — não é uma característica fixa de “todo elétrico”. E dentro da cidade, na maior parte do uso diário de quem mora em capital brasileira, a vantagem do silêncio continua sendo real e grande: é ali que o carro passa a maior parte do tempo rodando abaixo de 40-50 km/h.

Onde isso te leva

Se seu uso é essencialmente urbano — trabalho, escola, mercado, trânsito parado — o silêncio do elétrico entrega exatamente o que promete, e é uma das melhores partes de trocar de carro. Se você roda rodovia com frequência, principalmente em viagem longa, não compre pela promessa de “silêncio” sem testar naquela velocidade específica: peça pra rodar pelo menos 15-20 minutos a 100 km/h ou mais antes de assinar qualquer coisa, de preferência num trecho de asfalto real, não só na saída lisinha da concessionária. Vale usar isso como item extra no checklist de test-drive antes de comprar — ruído de rodovia raramente está na lista de quem está comprando o primeiro elétrico, e devia estar.

Fontes

C

Escrito por

Carolina Lemes

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

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