Carro elétrico pega fogo mais que carro a combustão? Os números dizem outra coisa
Em março de 2026, uma Range Rover plug-in pegou fogo carregando numa garagem de condomínio em Teresina e destruiu cinco veículos. Os dados de incêndio apontam pro lado oposto do medo — mas com uma ressalva que muda tudo.
Dia 17 de março de 2026, madrugada, garagem subterrânea de um condomínio de alto padrão na zona Leste de Teresina. Uma Range Rover Velar híbrida plug-in estava conectada ao ponto de recarga quando começou a pegar fogo. Quando o Corpo de Bombeiros controlou as chamas, cinco veículos já eram perda total — a própria Range Rover, uma Ford Ranger Raptor, um Toyota Corolla Cross e duas motos — e o prejuízo passou de R$ 1 milhão, segundo o TNH1. Ninguém se feriu, mas o caso reacendeu a pergunta que todo comprador de elétrico ouve do sogro, do porteiro e do síndico do prédio: carro elétrico pega fogo mais que carro comum? Os números internacionais dizem que não, e a distância é grande. O problema é o que acontece depois que o fogo começa.
A tese
Depois de projetar instalação de recarga residencial e comercial nos últimos anos, minha leitura é que essa conversa mistura dois números que não têm nada a ver um com o outro: a chance de um incêndio começar e a dificuldade de apagar um incêndio que já começou. O elétrico perde disparado no primeiro (é bem mais raro pegar fogo) e perde feio no segundo (quando pega, é mais difícil, mais demorado e mais tóxico de conter). Resumir isso numa frase só — “é perigoso” ou “é seguro” — é resposta errada nos dois sentidos.
O que os números internacionais mostram
A Interesting Engineering reuniu dados da National Fire Protection Association (NFPA) dos Estados Unidos e chegou a uma proporção que separa bem os grupos: cerca de 25 incêndios para cada 100 mil veículos elétricos vendidos, contra aproximadamente 1.500 para cada 100 mil veículos a combustão. Fazendo a conta, isso é quase 60 vezes menos frequente no elétrico. Não é um número pequeno de diferença — é uma ordem de grandeza inteira.
O Brasil ainda não tem uma base pública consolidada equivalente à da NFPA — nem a ANEEL, nem os Corpos de Bombeiros estaduais publicam hoje um número nacional de incêndios por origem de motorização. Então a proporção exata por aqui é uma incógnita real, não um detalhe que estou escondendo. O que dá pra afirmar com segurança é a direção: bateria de tração bem projetada, com BMS monitorando célula por célula, não é o componente que mais pega fogo num carro — é bem mais comum o incêndio começar em curto de chicote, vazamento de combustível ou falha elétrica de baixa tensão, problemas que existem em qualquer carro, elétrico ou não.
O caso de Teresina reacende o medo — mas não prova o que parece provar
Vale separar dois fatos do caso de Teresina que a manchete costuma embolar. Primeiro: a Range Rover Velar envolvida é híbrida plug-in, não um elétrico puro — tem motor a combustão e bateria menor, arquitetura diferente da de um BYD Dolphin Mini ou de um GWM Ora 03. Segundo: a apuração ainda investiga “a possibilidade de falha no sistema de recarga ou no próprio veículo”, segundo o TNH1 — ou seja, na data em que escrevo isso, nem a causa está fechada. Um caso isolado, com causa em investigação, não muda estatística agregada nenhuma. Ele vira manchete porque aconteceu num condomínio de alto padrão e destruiu cinco carros de uma vez — não porque prova que elétrico pega fogo com frequência.
O outro lado que a estatística não conta: quando pega fogo, é diferente
Aqui é onde a bateria de lítio realmente perde do carro a combustão. A Autopapo registrou dois incêndios brasileiros de elétrico puro em 2024 — um BYD Dolphin em Santa Maria (RS), em outubro, e um Volvo EX30 em Maceió (AL), em novembro — e ouviu o tenente Henrique Barcellos, do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, sobre por que esse tipo de fogo é mais complicado de controlar. Segundo ele, “as chamas irão perdurar até que todo o componente seja consumido”, e “o volume de água necessário para combater esse tipo de chama é centenas de vezes superior” ao de um incêndio comum.
A explicação técnica por trás disso é a reação em cadeia chamada thermal runaway: uma célula de lítio danificada libera calor, esse calor aquece a célula vizinha, que libera mais calor, e o processo se auto-alimenta célula por célula dentro de um pacote fisicamente protegido — justamente pra resistir a impacto e água, o que dificulta a água apagar de fora pra dentro. Some a isso outros dois complicadores que o próprio Barcellos aponta: a fumaça liberada é tóxica em ambiente fechado, tipo garagem de condomínio, e o sistema de alta tensão do carro precisa de um tempo de espera — algo em torno de 10 minutos — antes de qualquer abordagem mais próxima, porque a carroceria pode continuar energizada mesmo com o motor desligado.
O contra-argumento honesto
Onde a comparação internacional é frágil: a frota elétrica brasileira ainda é jovem — a maioria dos elétricos rodando por aqui tem poucos anos de estrada e poucos quilômetros acumulados, o que reduz a amostra de falhas ligadas a desgaste e degradação de longo prazo. Os números dos Estados Unidos e da Europa vêm de frotas mais maduras, com mais quilometragem rodada e mais tempo de exposição a colisão, chuva, sal de estrada litorânea. Isso não invalida a direção do dado — só significa que “60 vezes menos” é um número emprestado, não uma medição brasileira. E tem um detalhe que muda o foco de onde vale prestar atenção: no caso de Teresina, a suspeita recai sobre o sistema de recarga, não sobre a química da bateria em si — e recarga é exatamente a parte da equação que o dono controla, ao contrário da célula de lítio lacrada dentro do pacote.
Onde isso te leva
Pra situar em números que cabem no bolso do comprador: o Dolphin Mini lidera venda de elétrico no Brasil há meses. Aplicando a proporção internacional (25 incêndios a cada 100 mil vendidos) numa safra hipotética de 100 mil unidades rodando por vários anos, o número esperado de incêndios de origem na bateria fica na casa de dezenas — não de milhares. É exercício ilustrativo, não uma previsão fechada pro Brasil, mas dá a escala certa do risco: raro, não zero.
A pergunta que vale fazer não é “elétrico pega fogo?” — é “quem instalou meu ponto de recarga, e ele seguiu a norma?”. Ligar direto numa tomada 220V comum sem circuito dedicado é o tipo de risco que você controla e que aparece com frequência maior do que falha de célula de bateria. Entender como o BMS monitora cada célula da bateria ajuda a enxergar por que a química raramente é o elo mais fraco. E vale checar com antecedência o que a sua apólice de seguro cobre em caso de incêndio e como funciona a indicação de perda total depois de um sinistro — porque, raro ou não, quando acontece, o processo de reembolso é o que decide se o prejuízo fica só no susto ou no bolso.
Fontes
- Interesting Engineering — Do EVs really catch fire more? A data-driven safety comparison (dados NFPA)
- Autopapo — Incêndio de carro elétrico: entenda os riscos, como agir e por que pode ser tão perigoso (entrevista com tenente Henrique Barcellos, CBMMG)
- TNH1 — Carro elétrico pega fogo ao carregar no Brasil e prejuízo chega a R$ 1 milhão, 17 de março de 2026
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


