sexta-feira, 22 de maio de 2026
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Elétrico usado perde 11,95% em um ano — menos o Dolphin Mini, que perde 3,58%

A depreciação do elétrico usado no Brasil bateu 11,95% em 2026. Refiz a conta de TCO de 5 anos com o número real de revenda — e o ranking surpreende.

Eng. Rafael Iizuka 6 min de leitura
Carro elétrico compacto usado anunciado em pátio de revenda no Brasil
Carro elétrico compacto usado anunciado em pátio de revenda no Brasil

Em maio de 2025, um cliente meu fechou um elétrico compacto de R$ 240 mil convencido por uma planilha que só olhava economia de combustível. Em maio de 2026, ele me ligou para fazer a conta de venda: o carro valia, no mercado de usados, cerca de R$ 35 mil a menos do que ele pagou. A planilha original não tinha uma linha para isso. Quase nenhuma tem. E é justamente essa linha que decide se o seu elétrico foi um bom negócio ou um susto silencioso.

O que aconteceu com o valor de revenda em 2026

O dado novo é direto: o mercado nacional de elétrico usado registrou desvalorização média de 11,95% nos modelos em 2026, com a depreciação acelerada empurrada principalmente pelo custo alto de reposição de bateria, que pode chegar a R$ 80 mil em alguns modelos (Terra, CanalVE, Alô Alô Bahia). Esse 11,95% é a média — e média esconde mais do que mostra.

Porque dentro dela há uma diferença enorme entre modelos. O BYD Dolphin Mini recuou apenas 3,58% do valor em um ano, a menor desvalorização da categoria. O BYD Yuan Pro caiu 8,68%. O BYD Dolphin, mais caro, caiu 14,81% (CanalVE, Alô Alô Bahia). Em valores absolutos, quem comprou o Dolphin Mini no lançamento e vende hoje perde algo perto de R$ 17 mil — número grande, mas o melhor da categoria.

Por que essa diferença? A engenharia de revenda de elétrico tem três variáveis que combustão não tem na mesma intensidade: medo do custo de troca de bateria, ritmo de lançamento de modelos novos (que envelhece o usado mais rápido) e volume de unidades rodando (mais carros vendidos novos significam mercado de usados mais líquido e revenda mais estável). O Dolphin Mini ganha nas três: bateria menor e mais barata de repor, posição de carro de entrada e mais de 32 mil unidades vendidas em 2025, segundo a cobertura do mercado de usados.

Vale destrinchar a variável da bateria, porque ela é a que mais assusta comprador de usado e a que menos gente entende. Um pacote de bateria menor, como o do Dolphin Mini, não custa só “menos por ser menor” — ele usa química mais barata de repor e tem menos módulos para falhar. Já um elétrico de R$ 240 mil costuma carregar uma bateria grande, e a reposição dela é a linha que faz a desvalorização do usado disparar: quem compra um elétrico de cinco anos no mercado secundário precifica para baixo justamente o risco de ter que desembolsar dezenas de milhares de reais num pacote novo. Esse medo é racional, e ele se transfere direto para o preço de revenda. O comprador de segunda mão não está pagando pelo carro que vê — está descontando a bateria que ele teme ter que trocar.

A segunda variável, o ritmo de lançamentos, joga contra o elétrico de forma mais dura que contra o combustão. Quando uma marca lança um modelo novo com mais autonomia ou mais tecnologia a cada poucos meses, o usado do ano anterior envelhece rápido aos olhos do comprador — mesmo rodando perfeitamente. É o mesmo efeito de eletrônico de consumo, e é por isso que elétrico caro recém-lançado é o pior caso da curva: você compra no topo, e o lançamento seguinte derruba o seu antes mesmo de a garantia acabar.

Por que isso importa pra você

Aqui está o erro que vejo em quase toda planilha de TCO de elétrico que me mandam para revisar: ela soma economia de combustível e manutenção e esquece que depreciação costuma ser a maior despesa de um carro nos primeiros cinco anos — maior que combustível, maior que seguro. Ignorar a linha de revenda é otimizar o centavo e perder a nota.

Refiz a conta de TCO de cinco anos para dois cenários, usando os números de desvalorização anual observados em 2026 como ponto de partida. Importante: o estudo dá desvalorização de um ano; para projetar cinco anos eu apliquei a regra de engenharia de que a depreciação desacelera com o tempo (o tombo grande é no primeiro ano), então usei o percentual do primeiro ano e uma curva decrescente nos anos seguintes. Os valores de TCO abaixo são minha estimativa de trabalho, não cotação de revenda — combustível, seguro e manutenção são premissas médias para uso urbano de ~12 mil km/ano.

Item (5 anos, estimativa)Cenário A: Dolphin Mini (~R$ 120 mil)Cenário B: elétrico ~R$ 240 mil de revenda fraca
Depreciação acumulada estimada~R$ 28–34 mil~R$ 95–115 mil
Energia (recarga majoritariamente em casa)~R$ 9–12 mil~R$ 11–14 mil
Seguro + manutenção (estimativa)~R$ 22–28 mil~R$ 35–45 mil
Custo total aproximado em 5 anos~R$ 60–74 mil~R$ 140–175 mil

Olha onde o jogo é decidido: não na linha de energia (a diferença ali é de poucos milhares), mas na linha de depreciação, onde a distância é de dezenas de milhares de reais. Dois elétricos podem ter custo de recarga quase idêntico por km e mesmo assim ter TCO de cinco anos completamente diferente — porque um segura valor de revenda e o outro derrete. A planilha do meu cliente otimizava a linha errada.

O que fazer com isso agora

Se você está montando a conta de um elétrico, ajuste o método antes de ajustar o carro:

  1. Coloque a linha de depreciação primeiro, não por último. Estime a perda de revenda em cinco anos antes de comemorar a economia de combustível. Se a depreciação não couber no orçamento, o resto da planilha é irrelevante.
  2. Use o percentual real observado, não o do datasheet. Datasheet não tem campo de revenda. O número de 2026 (11,95% médio, com variação enorme por modelo) é o ponto de partida honesto.
  3. Prefira o modelo com histórico de revenda líquida. Carro com muitas unidades vendidas e bateria mais barata de repor (o caso do Dolphin Mini) tende a segurar valor melhor — e isso vale mais, em cinco anos, do que 20 km a mais de autonomia de catálogo.
  4. Desconfie do elétrico caro recém-lançado para revender cedo. É o pior caso da curva: tombo grande no primeiro ano e medo de bateria cara empurrando o usado para baixo.

A lição do meu cliente não é “elétrico é mau negócio”. É que a conta dele estava incompleta. Feita com a linha de depreciação no lugar certo, a escolha teria sido outra — e provavelmente um Dolphin Mini, não o carro de R$ 240 mil que perdeu R$ 35 mil em doze meses.

Fontes

  • Terra Brasil Notícias — “Carro elétrico perde até R$ 95 mil em um ano e desvalorização chama atenção no Brasil” (04/2026)
  • CanalVE — “Carros elétricos de entrada têm baixa desvalorização, diz estudo” (2026)
  • Alô Alô Bahia — “BYD Dolphin Mini usado: desvalorização do elétrico é a menor da categoria” (12/03/2026)
  • Anfavea / Fenabrave — dados de volume de vendas de eletrificados 2025–2026 (cobertura de mercado)
  • ANEEL — referência de tarifa residencial 2026 (gov.br/aneel)
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Escrito por

Eng. Rafael Iizuka

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

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