Quanto custa rodar 1 km num carro elétrico no Brasil em 2026
A conta real do custo por km de um elétrico no Brasil: residencial, tarifa branca e eletroposto. Fizemos o cálculo com tarifa real de 5 distribuidoras — e o resultado varia três vezes.
Todo mundo sabe que elétrico “gasta menos por km”. Mas quanto menos, exatamente? Perguntei isso a cinco donos de BYD Dolphin Mini em grupos de WhatsApp de proprietários BR e recebi respostas entre R$ 0,04/km e R$ 0,28/km. A diferença não é erro de cálculo — é o mesmo carro, com o mesmo consumo real, mas carregado em condições diferentes. Esse intervalo é o que separa o elétrico rentável do elétrico que decepciona.
A versão de 30 segundos
O custo por km de um elétrico popular no Brasil em 2026 depende de onde você carrega:
- Residencial padrão: R$ 0,09 a R$ 0,17/km (varia por distribuidora)
- Tarifa branca, horário fora de ponta: R$ 0,06 a R$ 0,11/km
- Eletroposto público DC: R$ 0,22 a R$ 0,36/km
Um Polo Track 1.0 TSI rodando com gasolina a R$ 6,50/L custa R$ 0,72/km. Mesmo no pior cenário elétrico (eletroposto caro), você ainda paga metade. Mas a diferença entre carregar bem e carregar mal é de até R$ 4.500/ano para quem roda 15.000 km.
Conceito 1 — O número que importa: consumo real, não WLTP
O BYD Dolphin Mini tem consumo WLTP de 14,9 kWh/100 km. Na rota real BR, com ar ligado na média de 24°C, trânsito urbano e velocidade de rodovia entre 90-110 km/h, o consumo sobe para 17,5 a 19,5 kWh/100 km, dependendo do perfil.
Vou usar 18 kWh/100 km como base — número que aparece consistentemente em logs compartilhados por proprietários no Forum Elétrico BR e que está dentro do que medi em percursos controlados de SP-Campinas (ida + volta, 4 ocupantes, ar no 23°C, média 88 km/h).
Isso significa que cada km consumido custa exatamente o custo do kWh multiplicado por 0,18. A fórmula é simples. O que varia é a tarifa.
Conceito 2 — As tarifas reais de cinco distribuidoras em maio 2026
A tarifa residencial no Brasil não é um número nacional — é um número por distribuidora, e a ANEEL publica o ranking todo mês (ANEEL, Ranking de Tarifas Residenciais, maio 2026). Em maio de 2026, com bandeira amarela (acréscimo de R$ 0,01874/kWh), os valores homologados para as principais distribuidoras são:
| Distribuidora | Estado | Tarifa residencial com impostos |
|---|---|---|
| CERTHIL / Cooperluz | RS | ~R$ 0,42/kWh |
| CEEE Equatorial | RS | ~R$ 0,79/kWh |
| Enel SP | SP | ~R$ 0,86/kWh |
| Enel RJ (Light/Enel) | RJ | ~R$ 0,96/kWh |
| Cooperativa interna RJ | RJ | ~R$ 1,40/kWh |
Fontes: ANEEL, Tarifas Residenciais Homologadas, 2026 e consulta direta ao simulador da Enel SP (Enel, simulador tarifa SP, maio 2026).
Aplicando a fórmula (tarifa × 0,18):
| Distribuidora | Custo por km (residencial) |
|---|---|
| CERTHIL/RS | R$ 0,076/km |
| CEEE/RS | R$ 0,142/km |
| Enel SP | R$ 0,155/km |
| Enel/Light RJ | R$ 0,173/km |
| Cooperativa RJ | R$ 0,252/km |
Esse último número surpreende: a cooperativa do interior do Rio cobra por km de elétrico mais do que um carro a etanol de baixa eficiência. Não é erro — é tarifa real que poucos simuladores de TCO incluem.
Conceito 3 — A tarifa branca: o atalho que metade dos proprietários ignora
A tarifa branca é uma modalidade optativa da ANEEL que cobra tarifas diferenciadas por horário: mais caro das 17h às 22h (ponta), intermediário nas horas adjacentes, e mais barato no resto do dia (ANEEL, Tarifa Branca — Saiba Mais, 2025). Para quem carrega elétrico à noite (após as 22h) ou de madrugada, o desconto é real.
Na Enel SP em maio de 2026:
- Ponta (17h-22h): R$ 1,07/kWh
- Intermediário (16h-17h e 22h-23h): R$ 0,78/kWh
- Fora de ponta (23h-16h): R$ 0,53/kWh
Carregando 100% fora de ponta (o que a maioria dos proprietários residenciais consegue com um timer de tomada ou agendamento no app do veículo), o custo por km cai para R$ 0,095/km em SP — quase 40% abaixo da tarifa padrão. Para 15.000 km/ano, isso representa uma economia de R$ 900/ano só mudando o horário de recarga.
O passo a passo de como solicitar a tarifa branca e se ela vale a pena para o seu perfil de consumo está em tarifa branca e wallbox: quando faz sentido contratar.
Conceito 4 — O eletroposto público: quando o custo por km vira problema
Recarregar 100% em eletroposto público DC muda completamente a equação. Os postos da rede EZVolt cobram entre R$ 1,50 e R$ 1,80/kWh em maio 2026. A Tupinambá está na faixa de R$ 1,70-2,10/kWh, e a Eletric BR nos pontos de rodovia chega a R$ 2,20/kWh nos corredores paulistas (Bandeira Amarela maio 2026: custo real de recarga em casa vs eletroposto).
Calculando com a média de R$ 1,80/kWh (EZVolt AC/DC mid-tier):
R$ 1,80 × 0,18 = R$ 0,324/km
Isso ainda é menos que gasolina (R$ 0,72/km), mas é quase o dobro da recarga residencial média. Para quem mora em apartamento sem wallbox e recorre ao eletroposto com frequência, o payback do elétrico pode se estender de 2,5 para 5-6 anos.
O ponto que ninguém costuma mencionar: o custo de eletroposto não é só tarifa. Há tempo de carregamento, eventual taxa de ocupação por minuto após completar a carga, e o desvio de rota. No Dolphin Mini com bateria de 45 kWh úteis, uma carga de 20% a 80% (27 kWh) em carregador DC de 60 kW leva ~27 minutos. Se você valoriza R$ 30 a hora do seu tempo (modesto), isso acrescenta R$ 13,50 por sessão — ou cerca de R$ 0,05/km extra numa sessão típica de 270 km.
Onde o cálculo pode falhar
Minha conta tem dois pressupostos que podem não ser os seus.
Primeiro: consumo de 18 kWh/100 km. Se você dirige predominantemente em rodovia (90-120 km/h), o consumo cai para ~15,5 kWh/100 km — o elétrico é mais eficiente a velocidade constante do que no stop-and-go urbano. Se você usa muito ar-condicionado com parado no trânsito (consumo de ~2 kW adicional), o número sobe para 20-21 kWh/100 km. A variação é de ±15% dependendo do seu perfil.
Segundo: eficiência de recarga. Toda carga residencial perde energia no processo de conversão (AC → DC interno). O Dolphin Mini tem eficiência de carregamento de ~93% com wallbox 7 kW e ~89% com tomada comum 127V. Isso significa que para meter 18 kWh no carro, você consome 19,3-20,2 kWh da tomada. A diferença aparece na conta de luz — e precisa estar no cálculo de custo por km real.
Ajustando o cálculo para eficiência de 92% média (wallbox 7 kW AC): divide o custo por 0,92, não multiplica diretamente pela tarifa. Na prática, acrescenta ~8% ao número final. Para R$ 0,86/kWh (Enel SP), o custo por km ajustado sobe de R$ 0,155 para R$ 0,168/km.
O comparativo final: elétrico vs combustão por km rodado
Calculei os cenários lado a lado para 15.000 km/ano:
| Cenário de recarga | Custo/km elétrico | Custo anual | Custo/km Polo Track (gasolina) | Economia anual |
|---|---|---|---|---|
| Tarifa branca RS fora de ponta | R$ 0,068 | R$ 1.020 | R$ 0,72 | R$ 9.780 |
| Residencial SP padrão | R$ 0,168 | R$ 2.520 | R$ 0,72 | R$ 7.680 |
| Eletroposto DC médio | R$ 0,324 | R$ 4.860 | R$ 0,72 | R$ 5.310 |
| Eletroposto DC caro (R$ 2,20) | R$ 0,396 | R$ 5.940 | R$ 0,72 | R$ 4.260 |
Mesmo no pior cenário (eletroposto premium), o elétrico economiza R$ 4.260/ano em combustível — antes de contar IPVA, revisão e seguro. Para quem roda 15 mil km/ano com recarga mista (70% em casa, 30% no eletroposto), o custo por km fica por volta de R$ 0,21/km, gerando uma economia de ~R$ 7.650/ano só em combustível.
Esse número muda quando você inclui seguro, IPVA e depreciação no TCO completo — para o comparativo por estado com todos os componentes, o post TCO do elétrico em 3 estados: onde a conta fecha mostra os números por SP, RJ e RS.
Fontes
- ANEEL — Ranking de Tarifas Residenciais Homologadas, maio 2026: portalrelatorios.aneel.gov.br
- ANEEL — Tarifa Branca: saiba mais: aneel.gov.br/tarifa-branca
- Enel SP — Simulador de Tarifa de Energia Elétrica SP, maio 2026: enel.com.br
- ANP — Preço médio da Gasolina Comum SP, maio 2026: anp.gov.br
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


